Aço pode seguir minério em reajustes trimestrais
13/05/10
O modelo de reajustes trimestrais imposto pela Vale aos seus clientes este ano deve se espalhar por toda a cadeia do aço, que tem no minério de ferro uma das suas principais matérias-primas. Grandes siderúrgicas globais, como a ArcelorMittal e ThyssenKrupp, já caminham nessa direção.
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Ontem, os dois grupos confirmaram a intenção de promover novos ajustes nos preços este ano.
“É imperativo a adaptação dos contratos às mudanças dos preços das matérias-primas no curto prazo. Nossos contratos anuais devem levar isso em consideração. Estamos no caminho para encontrar uma boa solução em conjunto com nossos clientes”, disse Michael Pfitzner, diretor de marketing e coordenação comercial da ArcelorMittal.
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Para Christiano da Cunha Freire, presidente da Frefer, segunda maior distribuidora independente de aço no Brasil, o novo sistema de precificação, que prevê reajustes trimestrais com base na variação dos preços do insumo no mercado à vista, vai obrigar as companhias a promover calibragens mais frequentes em seus preços.
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A movimentação das siderúrgicas, segundo ele, tende a influenciar o comportamento de toda a cadeia do aço, o que acabará respingando em setores como o de automóveis, construção civil e linha branca. “Se o custo (de produção) varia a cada três meses, as siderúrgicas vão precisar refazer seus cálculos”, afirmou. E completou: “Eles devem buscar colocar também em prazos trimestrais. O que é ruim para uma montadora, por exemplo, porque é um prazo muito curto.”
Novos preços. A intenção anunciada pela ArcelorMittal é repassar aos clientes parte da pressão nos custos de produção a partir de julho. A Thyssen também programa para o mesmo período um novo aumento de preços.
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O diretor executivo de Ferrosos da Vale, José Carlos Martins, também prevê um cenário de reajustes mais frequentes para o setor. “Se o mundo se adaptou a grandes variações no preço do petróleo, que é um insumo incomparavelmente mais importante em termos econômicos do que o minério de ferro, porque não se acomodaria ao minério de ferro? Não vejo nenhuma razão para que não se acomode”, argumentou.
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Martins admite que o sistema de precificação adotado pela Vale, que toma como base a média de preços do insumo dos últimos três meses no mercado à vista, gerou um primeiro impacto forte. Entretanto, destaca, as próximas oscilações tendem a ser mais suaves. “O que existe hoje é um hábito arraigado de muitos anos do minério ser corrigido anualmente. É mais uma questão de se acostumar do que de qualquer outra coisa.”
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Já o presidente da Frefer tem uma visão mais crítica sobre a mudança. De acordo com o executivo, o principal problema do novo modelo é que tirou parte da previsibilidade na formação dos custos das produtoras de aço, que tradicionalmente trabalham com apenas um reajuste anual no preço do minério de ferro e do carvão, outro importante insumo básico para a produção do aço.
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“Ter um contrato com base anual de preço não funciona mais. Um contrato anual e os custos variando a cada três meses, isso pode ficar muito bom ou muito ruim para você”, argumenta o executivo.
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O analista do BB Investimento, Antonio Emílio Bittencourt Ruiz, é outro que também aposta que, para se proteger das variações trimestrais do minério, as siderúrgicas vão alterar cláusulas contratuais para seus clientes. Sem isso, sempre terão de ceder margens, segundo o analista.
Quando o custo de produção de uma empresa sobe, a companhia diminuiu sua margem de ganhos com a venda do produto, diz. Para reduzir esse impacto, as companhias buscam repassar essa pressão de custo aos clientes com reajuste de preços.
Estadão