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Vale do Silício volta a viver um frenesi de investidores

Notícias Gerais

20/04/2011


Travis Kalanick fundou uma empresa que permite às pessoas usar um aplicativo ou torpedo para passar sua localização e pedir um táxi pelo celular. Um dia desses, era o próprio Kalanick quem estava dando as coordenadas.
Uma série de firmas importantes de capital de risco disputava para ver quem investiria na Uber, a empresa criada por Kalanick. Enquanto apresentava o plano de negócios na sede da Benchmark Capital, Kalanick, 34 anos, pediu licença três vezes para ligar para outros investidores interessados. Seu recado? Se quisessem investir, que corressem.
Um sócio da Benchmark, Bill Gurley, não titubeou. “Não há por que falar com esses caras”, disse a Kalanick. “Vamos chegar a um acordo aqui.” Depois de dois dias de cortejo, a Benchmark entregou quase US$ 12 milhões em capital em troca de 20% da Uber, avaliando a empresa em US$ 60 milhões.
Foi só uma cena na última corrida do ouro a varrer o Vale do Silício, onde há investidores se acotovelando para financiar ideias promissoras e empresas podem escolher suas fontes de capital. A corrida está provocando uma onda de dor de cotovelo e trocas de farpas entre bancos em Wall Street, especuladores bilionários e veteranos da indústria do capital de risco.
“De repente, todo mundo quer investir no Vale do Silício”, diz Gurley. “É uma competição o tempo todo.”
Em 2010, pela primeira vez em três anos, o investimento de capital de risco subiu nos Estados Unidos – para US$ 21,8 bilhões (foram US$ 18,3 bilhões em 2009, a pior marca em 12 anos), segundo a Associação Nacional do Capital de Risco do país. No primeiro trimestre de 2011, informa a associação, os fundos de capital de risco nos EUA captaram mais de US$ 7 bilhões, 76% a mais do que no primeiro trimestre de 2010.
O interesse por ações de empresas de capital fechado do setor de tecnologia também está em alta. Num intervalo de 90 dias um ano atrás, o SharesPost Inc., um dinâmico mercado para ações de empresas de capital fechado, intermediou cerca de 20 transações para 5 empresas, disse o fundador e presidente Greg Brogger. Nos últimos 90 dias, processou mais de 300 transações com cerca de 40 empresas.
Com o mercado tão forte, é cada vez mais comum o investidor segurar sua participação em vez de pressionar os fundadores a abrir o capital da empresa.
Em vez de esperar a hora da abertura de capital para ganhar dinheiro, os bancos de Wall Street estão entrando na onda. O Goldman Sachs Group Inc. marcou um gol em janeiro quando seu acordo de financiamento com o Facebook avaliou a empresa de capital fechado em US$ 50 bilhões. Um mês depois, o J.P. Morgan Chase & Co. lançava o Digital Growth Fund para investir exclusivamente no setor de alta tecnologia.
Para certos investidores, o clima lembra o de 1995, quando a abertura de capital da Netscape deflagrou a febre pontocom. A bolha resultante estourou em 2000, infestando o setor de tecnologia de empresas quebradas e prejuízo.
Para outros, a expansão de hoje é mais sustentável. “Há um punhado de gente rica e de empresas com dinheiro subsidiando empresários de tecnologia, mas desta vez esses empreendedores são melhores”, diz David Lee, sócio-gerente da SV Angel, que fornece capital-semente para empresas nascentes. “São empresas com milhões de usuários ativos ou lucro de verdade. Não é um investimento inconsequente.”
O Twitter, cujos pretendentes ajudaram a dobrar o valor da empresa em questão de meses, é um emblema da nova febre. A firma de capital de risco Kleiner Perkins Caufield Byers entregou US$ 200 milhões à rede social em dezembro, depois de aceitar que a empresa valia US$ 3,7 bilhões. Dois meses depois, o fundo de tecnologia do J.P. Morgan comprou 10% do Twitter de outros acionistas; a transação elevou seu valor para US$ 4,5 bilhões. A negociação dessas ações nas últimas semanas indica que os investidores estão avaliando a empresa em US$ 7,7 bilhões.
“Essas cifras não parecem reais para mim”, diz um fundador do Twitter, Isaac “Biz” Stone. “Gente que normalmente não [participa do mercado] está tentando pegar o bonde.”
Com a efervescência, surge um efeito “cordão de veludo”. O site AngelList, onde empreendedores e investidores se encontram, informa que rejeitou 3.000 potenciais investidores no último ano. Segundo Naval Ravikant, diretor do site, essa exclusividade ajuda a proteger o empreendedor de investidores impacientes atrás de retorno rápido.
No mês passado, a firma de capital de risco Y Combinator causou revolta entre certos investidores. A firma organizou um “dia de demonstração” para os projetos mais promissores em sua carteira. Mas só quem investira no passado foi convidado para as primeiras apresentações – regra que irritou o resto da turma do dinheiro.
Diferentemente de um banco, um investidor experiente do Vale do Silício pode dar tanto dinheiro quanto conselhos – combinação que muitas vezes rende um assento no conselho. Esse cobiçado posto normalmente abre caminho para mais informação e mais ações.
“Nem todo investidor é igual”, diz Shawn Fanning, um dos fundadores do Napster e que, agora, está levantando dinheiro para uma nova empresa. “Também queremos investidores com know-how e contatos, que possam ser nossos parceiros, o que dá à turma mais antiga aqui uma vantagem.”
Com indícios de que surge hoje um novo sistema de classes para o investidor, há quem tema ficar de fora do jogo.
Pouco depois da retumbante estreia do J.P. Morgan no reino de alta tecnologia, o diretor da área de private equity do banco, Larry Unrein, recebeu várias chamadas de investidores de capital de risco revoltados porque a instituição estava invadindo o território deles, segundo uma pessoa a par da situação.
Num encontro a portas fechadas no fim do ano passado, vários investidores de capital de risco – entre eles David McClure, que foi executivo da PayPal, da eBay – se queixaram de que investidores bilionários e firmas de Wall Street estavam começando a expulsá-los do mercado ao pagar mais por novas empresas de tecnologia, segundo três pessoas ali presentes.

Valor Econômico


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