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Uma revolução na indústria global?

Notícias Gerais

16/04/2012


Em novembro publiquei neste espaço um texto (“Na crise, a indústria global se movimenta”) no qual chamei a atenção para algumas mudanças na forma de operação do sistema de produção mundial.
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Em particular, mencionei uma revisão na extensão das cadeias globais de suprimento, buscando reduzir o risco de paradas súbitas na produção de certos insumos críticos (como determinados chips especializados), com efeitos graves na produção de integradores e montadores mais próximos do mercado.
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O triplo acidente no Japão (com efeitos deletérios na montagem de automóveis) e a inundação na Tailândia, que afetou a montagem de computadores em várias partes do mundo, foram determinantes desse movimento. Os benefícios da concentração da produção de certos insumos em “clusters” continuam a pesar nas decisões de localização de plantas, mas certamente foram ajustados para determinados riscos, como os dos acidentes acima mencionados.
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A segunda mudança importante foi o renascimento da indústria americana, resultado da elevação da produtividade, da redução de custos (como mão de obra) e da revolução da produção de gás natural, a preços muito baixos. O preço atual do gás equivale a um barril de petróleo de US$ 20! Com isso, indústrias, como a petroquímica e a de aço, vivem uma época de ouro, atraindo novos investimentos, como os realizados pela Braskem e pela Oxiteno. A operação americana da Gerdau também está sendo beneficiada. A constante elevação dos custos de produção na China reforça essa tendência.
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Mencionei também naquele artigo as mudanças tecnológicas associadas à evolução da biotecnologia, da nanotecnologia e da robotização. A propósito desse último tema, Raquel Landim e Renato Cruz publicaram recentemente aqui no Estado uma extensa matéria sobre sua evolução no Brasil e no mundo. De fato, a automação e a robótica estão avançando muito rapidamente no mundo, particularmente como resultado da forte queda de preço dos equipamentos, algo especialmente decorrente de melhorias na área de software.
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Antes de avançar, acho importante uma ressalva. Quando se fala de robotização o que vem à mente é um boneco com inteligência artificial tipo Guerra nas Estrelas. Entretanto, isso está longe da realidade, isto é, um equipamento com inteligência artificial ainda não existe. Alguém poderia perguntar se a máquina que vence o campeão mundial de xadrez não seria dotada de tal possibilidade; a resposta é negativa. O que o computador tem, ao contrário da inteligência, é o que Martin Ford chamou “de algoritmo da força bruta”. A máquina ganha do enxadrista, que tem inteligência e criatividade, pela rapidez de examinar, em segundos, milhões de opções de jogadas, escolhendo a melhor.
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A produção e venda de robôs industriais vêm crescendo rapidamente: superaram mais de 100 mil unidades/ano desde 2005, exceto em 2009, quando a crise reduziu a absorção para 60 mil. Estima-se que em 2011 a venda tenha atingido 141 mil unidades. Coreia (23,5 mil), Japão (21,9 mil), China (15 mil), EUA (14,3 mil) e Alemanha (14 mil) são os que mais compraram robôs. Por exemplo, o excelente Ethevaldo Siqueira visitou uma fábrica na Coreia, de telas de TV, totalmente automatizada. No mesmo ano, estima-se que o Brasil adquiriu 640 unidades. Estima-se ainda que o estoque mundial de robôs em operação seja algo entre 1,1 milhão e 1,3 milhão de unidades.
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Do ponto de vista setorial, a indústria eletrônica e a automotiva são de longe os maiores consumidores. A demanda deverá continuar a crescer rapidamente nos países industriais líderes. Na área de serviços, o crescimento também tem sido muito rápido, destacando-se saúde, entretenimento e militar.
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A expansão da automação é resultado de muitos fatores. A primeira causa é a redução de custos, especialmente de mão de obra, inclusive por menores riscos de acidentes no trabalho e pela preservação da saúde do trabalhador. Isso é especialmente verdadeiro em áreas como pintura e solda. Há redução também dos custos de energia e no consumo de materiais, em razão de menor desperdício. Ao mesmo tempo, a produtividade das fábricas se eleva pela possibilidade de produzir dia e noite, com uma cadência constante, pela precisão e qualidade do acabamento das peças, pela utilização do espaço da fábrica e pela maior flexibilidade na linha de produção, uma vez que a reprogramação do equipamento é muito fácil. Em resumo, a robotização permite produzir grandes volumes de produtos, com alta qualidade e menores custos. Como resultado, a expansão da nova tecnologia vai seguir crescendo velozmente, até mesmo, em países com limitações na oferta de mão de obra qualificada, como é o caso do Brasil. Todos os setores produtivos (indústria, mineração, agricultura, medicina, transportes, etc.) serão afetados.
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Em paralelo, outra revolução avança, que é o desenvolvimento da impressora em 3D. Esse equipamento utiliza o conhecimento adquirido com base nas impressoras a jato de tinta (que trabalham em duas dimensões) e de inovações na eletrônica, na química e no laser. Trabalha com pó de metal ou de plástico e, comandada por um software, constrói uma peça, por exemplo, depositando o material camada por camada. É, por isso, chamado de um processo aditivo (additive manufacturing), para se diferenciar da forma clássica de construir a peça, por exemplo, de um bloco de metal. Este é desbastado por um torno, sendo, portanto, um processo subtrativo. As impressoras em 3D têm, em consequência, uma grande economia de matéria-prima. O processo também utiliza menos energia. Quem vê, pela primeira vez, um equipamento desses construindo um bloco de motor fica muito impressionado, posso garantir.
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Quando esses equipamentos surgiram, há pouco mais de uma década, eram utilizados para construir protótipos, de forma rápida e barata, acelerando as inovações. Por essa razão, um dos mais importantes efeitos da tecnologia é diminuir as barreiras à entrada na indústria, beneficiando realmente os bons projetos, que só se conhecem quando vão a mercado. Mais uma vez, o preparo e o conhecimento das pessoas e das empresas será o fator decisivo. A combinação dessas tecnologias inovadoras vai implicar uma revolução no mundo da produção industrial. Vale a pena destacar os seguintes pontos:
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1. Os países com grande disponibilidade de mão de obra perderão parte de sua vantagem. As vantagens comparativas estarão nos países com menor custo de energia, de infraestrutura e maior oferta de pessoal altamente qualificado, dedicado à geração de novo conhecimento. É neste último item que os países bem-sucedidos na Ásia (China e Coreia, especialmente) investem tão furiosamente;
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2. No que depender dessas tendências, a distribuição de renda vai piorar;
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3. A qualidade dos produtos vai se elevar;
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4. Muitas ocupações intermediárias serão substituídas pela automação;
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5. O emprego industrial crescerá menos que o valor adicionado do setor;
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6. As novas tecnologias ajudam a reduzir custos em elevadas escalas de produção. Ao mesmo;tempo, viabilizam escalas menores, permitindo o que Peter Marsh chamou de massificação personalizada.
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É o início de uma nova revolução na produção industrial. Nossa indústria, também por essa razão, será afetada.
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Estado de S. Paulo


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