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Suécia muda cidade de lugar para explorar ferro no Círculo Polar

Notícias Gerais

04/08/2011


Esta cidade sueca, localizada 145 km ao norte do Círculo Polar Ártico, fica sobre uma preciosa jazida de minério de ferro enterrada diagonalmente na crosta da Terra. Alcançar essa riqueza mineral significa fraturar o solo debaixo de Kiruna. E, como isso é perigoso demais para as 22 mil pessoas que moram lá, boa parte da cidade está sendo literalmente transferida. A começar pela pequena casa construída no primeiro boom de mineração da cidade, por volta de 1900.
“Sabemos que não havia muita escolha”, diz Ann Catrin Fredriksson, diretora municipal de planejamento urbano e meio ambiente. “E esta é uma cidade mineira, então ninguém foi contra.”
A grande dúvida dos habitantes da cidade é em que direção se mudar e o que fazer com os prédios históricos. “Houve gente dizendo que quer ficar no alto do morro, ou naquele vale”, diz Fredriksson.
Também há uma questão que se torna cada vez mais crucial quanto mais perto do Polo Norte: o que fazer com as renas?
O plano de mudar Kiruna começou a tomar forma no boom econômico do início da década de 2000 e ganhou urgência nos últimos anos por causa do apetite chinês por matéria-prima. A mineradora estatal sueca Luossavaara-Kiirunavaara AB explora minério de ferro no local desde o século XIX.
Executivos de mineração abordaram os líderes municipais em 2004 pedindo a mudança da cidade. Não foi a primeira vez que uma mineradora pediu para derrubar alguns prédios, mas a escala no caso de Kiruna não tem precedentes.
Fredriksson chegou a um acordo com a LKAB, a mineradora estatal, para pagar todos os custos, como é definido pela lei sueca. A prefeitura de arquitetura modernista, por exemplo, está sendo desmontada e reconstruída. A empresa gastou US$ 460 milhões comprando terras e movendo, demolindo e construindo edifícios. Ela aceitou transportar intactos mais de uma dezena de edifícios históricos.
Kiruna é um lugar notável. A temperatura no inverno chega a 40 graus abaixo de zero. O lanche favorito é carne de rena defumada enrolada num pão parecido com pão sírio. “Não é o melhor lugar para comprar um bom terno, mas se você busca uma furadeira capaz de operar a 90 metros de profundidade, está com sorte”, diz Anders Holstenson, empregado da LKAB e guia turístico das minas locais.
A principal atração turística é o famoso hotel de gelo de Jukkasjarvi. Ele derrete na primavera e precisa ser reconstruído no outono.
As autoridades de Kiruna anunciaram no ano passado que iam mudar a cidade mais para o leste, para aproveitar o solo de melhor qualidade. Chegou-se a um acordo de que 20 hectares de área residencial e 20 de área pública e comercial teriam de ser demolidos e reconstruídos.
Nos próximos 20 anos, cerca de 3 mil dos atuais 22 mil moradores terão de se mudar. “Mas a transformação de Kiruna vai continuar enquanto minerarmos, então, no fim, talvez todo mundo da cidade” tenha de se mudar, diz Johanna Fogman, porta-voz da LKAB. “Isso pode demorar até cem anos.”
Patrick Stalnache, um mineiro da LKAB de 45 anos, diz que de 30 a 35 famílias de seu bairro, no centro de Kiruna, vão perder suas casas e serão indenizadas pela LKAB. Ele mudou a mulher e os dois filhos em abril para um local a poucos quilômetros da cidade. “Sem a expansão da mina não existiria ninguém por aqui”, disse ele.
Nem todo mundo é obrigado a se mudar. Apenas os que têm casa em cima da mina. Durante um almoço no salão da sede da LKAB, Oskar Niva, um mineiro de 28 anos, disse que é do subúrbio de Hogalid. “Não se preocupe, você vai ficar bem pelos próximos 70 anos”, afirmou Holstenson.
A transferência de alguns edifícios históricos, a demolição de algumas casas e a construção de outras vai começar no fim do ano que vem. Enquanto isso, a LKAB e a cidade de Kiruna têm enfrentado alguns outros problemas.
Quando trilhos localizados em terreno instável foram transferidos de um lado para o outro da mina, a população sueca de etnia sami, um povo indígena, expressou preocupação com as renas. Os 15 mil samis que moram na Suécia têm milhares de renas. Na primavera, eles permitem que as renas, devidamente identificadas, passeiem pelas colinas. Quando volta a nevar, as renas retornam. Os novos trilhos ficam perto demais da trilha migratória das renas.
A LKAB, a cidade e o Ministério dos Transportes da Suécia aceitaram construir uma ponte com direito a grama e terra para a passagem das renas. Ela ficou pronta em outubro. “As renas têm uma bússola interna e queríamos permitir que elas a seguissem sem ter de cruzar os trilhos do trem”, disse Lina Nasstrom, que trabalha para Autoridade Estatal de Transportes.
Mas o chão ficou congelado demais em outubro para as renas andarem nele. Então os pastores Sami foram de picape até as montanhas para buscar as renas.
Para instruir os moradores sobre a mudança futura, a LKAB publica oito vezes por ano um jornal sobre a transformação urbana, como chama o processo, e mantém um escritório no centro de Kiruna. Os moradores “perguntam para onde suas casas serão transferidas. Nem sempre sei”, diz Ylva Sievertsson, que trabalha para a LKAB.
Fora da comunidade mineira há quem não ainda entenda o processo. “É difícil saber exatamente o que está acontecendo”, diz Birgitta Dahlberg, de 53 anos, gerente de uma loja de roupas. “Fala-se muito de transferir a cidade”, diz John Stalnacke, um operário da construção civil de 25 anos. “É por uma boa causa, mas eles deviam fazer tudo de uma vez.”
Uma dúvida fundamental na cidade tem sido o que fazer com a igreja luterana local, construída em 1912 e eleita em 2001 o edifício mais popular da Suécia. As autoridades locais têm procurado um local perto do aeroporto, mas ainda não decidiram. “Ainda não sabemos onde ficará a igreja”, diz a pastora Lise-Lott Wikolm, “mas não deve ser muito difícil. Ela é de madeira, dá para simplesmente ser desmontada e montada de novo”.
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Valor Econômico


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