Sistema de reajustes trimestrais não deve ser abandonado
31/05/2011
Mesmo que o setor siderúrgico nacional não volte a registrar no mercado mundial o desempenho verificado no período pré-crise financeira internacional, a precificação do principal insumo do segmento – o minério de ferro – deve continuar sendo realizada trimestralmente, engavetando de vez a prática do benchmark, que prevê reajustes anuais.
De acordo com avaliação do analista do Banco Geração Futuro, Rafael Weber, a comercialização da commodity após a retração da economia se tornou mais dinâmica e o mercado spot (à vista), em que são baseadas as projeções de reajuste, ganhou grande relevância, tornando o modelo de precificação trimestral ainda mais sólido.
Conforme a analista da Tendência Consultoria, Stefânia Grizzana, o atual mecanismo traduz com mais precisão a relação entre oferta e demanda por minério na economia global, sendo por isso mais eficiente que a antiga prática.
“Havia muita defasagem nos valores estabelecidos nos contratos anuais, o que foi corrigido pela precificação trimestral. Como o mercado está bem mais favorável às mineradoras – que têm mais poder de negociação, em função da maior demanda em relação à oferta – é difícil que a nova fórmula de reajuste seja substituída”, argumenta.
Apesar da alegação das siderúrgicas, de que o modelo estaria colocando o setor em desvantagem devido à maior freqüência dos reajustes, Stefânia Grezzana ressaltou que a prática não tende a favorece exclusivamente a indústria extrativa mineral, já que funciona de acordo com a dinâmica do mercado.
“Na atual conjuntura, as mineradoras estão sendo beneficiadas porque a comercialização do insumo está muito aquecida. No entanto, se em um determinado momento econômico houver mais oferta do que demanda, os preços da commodity diminuirão, o que favorecerá as usinas, já que em vez de esperarem um ano, levarão apenas três meses para comprarem o minério a um valor menor”, explica.
Weber salientou ainda que a situação das siderúrgicas em relação ao preço do minério seria significativamente desfavorável caso os reajustes fossem realizados mensalmente, opção que, conforme ele, chegou a ser cogitada no mercado.
“A precificação trimestral oferece uma relativa previsibilidade às empresas do setor siderúrgico, já que a fórmula permite que seja informado de quanto será o reajuste um mês antes de os novos valores serem praticados. Desta forma, as siderúrgicas conseguem se organizar para definir quando e como o aumento será repassado às cadeias produtivas seguintes, como o setor automotivo e a construção civil. No caso da precificação mensal, não há esta possibilidade. Para outros tipos de metais, há inclusive, a prática de reajustes diários, com cotações em bolsa, como no caso do níquel, o que seria impraticável para o minério”, afirma o especialista.
Após as mineradoras abandonarem o sistema anual de precificação, no início de abril do ano passado, os valores do insumo registraram aumento superior a 100%. A mudança foi possível em virtude do aquecimento na demanda de países asiáticos, principalmente a China.
Somente no primeiro trimestre deste ano, o reajuste das mineradoras alcançou 9% e a cotação da commodity chegou a US$ 192 a tonelada no mercado internacional. No segundo trimestre, na comparação com o período imediatamente anterior, a alta alcançou a aproximadamente 20%, impulsionada pelo forte aquecimento no mercado spot. Para os três meses seguintes, as projeções apontam para uma estabilização dos preços.
Diário do Comércio