Mineração e indústria defendem de política pública para fortalecer cadeia de minerais críticos no Brasil, em painel da EXPOSIBRAM 2026
26/08/2026
Painelistas identificaram entraves tecnológicos e de qualificação profissional e defenderam maior articulação entre pesquisa, mineração e indústria
Os desafios para estruturar uma cadeia industrial de minerais críticos no Brasil estiveram no centro do painel “As políticas públicas para implementação da cadeia de minerais críticos e estratégicos no Brasil”. O encontro aconteceu na quarta-feira (26/08), durante a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração – EXPOSIBRAM 2026, no Expominas em BH.
Para esse debate, foram convidados representantes do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), representado pelo diretor-presidente, Pablo Cesário. A mediação ficou a cargo do diretor do Departamento de Geologia e Produção Mineral (DGPM/SNGM), do Ministério de Minas e Energia, José Luiz Ubaldino de Lima.
O Brasil atravessa um momento estratégico na discussão sobre minerais críticos, o qual envolve dimensões econômicas, políticas e geopolíticas. Terras raras e minerais como lítio, níquel e grafita ganharam relevância diante da corrida internacional por recursos considerados essenciais à transição energética e ao desenvolvimento tecnológico. Embora o país detenha uma das maiores reservas de terras raras do mundo, a consolidação desse potencial depende de um ambiente regulatório capaz de oferecer maior segurança jurídica e previsibilidade aos investimentos.
Nesse cenário, políticas públicas estruturantes podem contribuir para articular diferentes elos dessa atividade, desde a pesquisa e a formação de profissionais até o desenvolvimento tecnológico, o processamento e a aplicação industrial dos recursos minerais.
Para o analista de Produtividade e Inovação da ABDI, Jorge Boeira, a abordagem sobre o papel estratégico da mineração não é recente. Ele reconheceu a atuação do IBRAM na aproximação do setor com temas como clima e transição energética, questionamentos que, segundo ele, ganharam força ainda na Rio 92.
Para ele, o desenvolvimento econômico e social está diretamente relacionado à mineração, desde a construção de uma residência até os processos industriais mais complexos. “Considero que essa é uma discussão fundamental, pois ela extrapola a questão mineral”, afirma o analista.
Boeira também chamou atenção para o Projeto de Lei 2780/2024, que estabelece um marco legal para a pesquisa, exploração, processamento e reciclagem de terras raras e outros minerais considerados essenciais ao país. “Cada recurso exige uma abordagem específica, considerando as diferentes rotas tecnológicas e técnicas de aproveitamento necessárias ao seu desenvolvimento”, frisa.

“Brasil precisa assumir postura mais propositiva”
Em participação remota, o secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, Mauricio Carvalho Lyrio, destacou a posição relevante do Brasil na produção de minerais críticos e classificou como “produtiva” a parceria entre o IBRAM e o Itamaraty.
Para Lyrio, a tramitação do PL 2780, atualmente no Senado Federal, deve avançar. A proposta estabelece diretrizes para a pesquisa, exploração, processamento e reciclagem de terras raras e outros minerais considerados estratégicos para o país.
O secretário também destaca que o interesse internacional pelo Brasil amplia as oportunidades de cooperação, mas exige clareza sobre os segmentos nos quais o país tem condições de avançar. Nesse processo, considera fundamental ampliar a capacidade tecnológica e econômica nacional, de modo a agregar valor aos recursos minerais e fortalecer os elos da cadeia produtiva.
Na análise de Lyrio, o Brasil deve adotar “uma postura mais propositiva” diante da crescente demanda internacional por esses recursos. “Uma visão diplomática ecumênica é uma vantagem para o Brasil. Esse é um ativo que temos, sem restrições ideológicas”, pontua.
O MagBras e a política que deu certo
O coordenador do Centro de Inovação e Tecnologia SENAI para Ímãs de Terras Raras, André Pimenta, apresentou ao público o projeto MagBras, iniciativa voltada à construção de uma cadeia industrial para a fabricação de ímãs de terras raras no país.
Localizado em Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, o laboratório-fábrica busca consolidar uma estrutura produtiva nacional para esses materiais, considerados estratégicos para segmentos como transição energética, motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos.
A iniciativa também revela os desafios tecnológicos que ainda precisam ser superados. “O Brasil ainda não tem a tecnologia adequada”, reconheceu André. O projeto, segundo ele, atua justamente sobre as lacunas existentes entre a atividade mineral e a aplicação industrial, buscando aproximar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e produção em escala.
Para o pesquisador-chefe do Instituto SENAI de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, Luís Gonzaga Trabasso, o MagBras demonstra como políticas públicas de estímulo à pesquisa e à inovação podem contribuir para a estruturação de novos segmentos produtivos. O projeto conta com o apoio de instituições de pesquisa e está associado ao Programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), do Governo Federal.
“É possível o governo aportar recursos para depois entrar com a iniciativa privada”, afirma Gonzaga, ao defender a combinação entre investimentos públicos e participação empresarial para levar tecnologias desenvolvidas em centros de pesquisa à escala industrial.
“Precisamos construir gente”
A formação de profissionais qualificados também foi apontada como um dos fatores determinantes para o desenvolvimento de minerais críticos no país. O diretor-presidente do IBRAM, Pablo Cesário, fez um alerta para a dimensão humana desse processo. “Precisamos ‘construir’ gente, porque máquina a gente já constrói”, salienta.
Cesário avaliou positivamente, o PL 2780 e defendeu a implementação de projetos de escalonamento industrial capazes de conduzir tecnologias e iniciativas ao estágio de produção. O IBRAM avalia que a iniciativa é importante para o país, mas defende ajustes ao texto, principalmente nas atribuições previstas para o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE).
Segundo o Instituto, a atuação do Conselho deve ser bem esclarecida e voltada ao registro e ao acompanhamento das atividades relacionadas à PNMCE, em conjunto com a Agência Nacional de Mineração (ANM), sem criar obstáculos à atração de investimentos, à criação de empresas ou ao desenvolvimento de novos projetos no Brasil.
Na sua fala, Pablo Cesário também chamou atenção para os efeitos dos subsídios chineses sobre o setor e para os desafios de estruturar uma indústria nacional capaz de competir em condições adequadas. Para ele, o cenário atual abre uma janela de oportunidade que precisa ser aproveitada, embora ainda persistam desafios a serem superados.
A discussão sobre qualificação profissional também se estendeu aos mecanismos de financiamento capazes de sustentar a inovação no setor mineral. Cesário e Boeira defenderam a ampliação e a diversificação das fontes de recursos para viabilizar projetos de maior complexidade tecnológica, sobretudo, aqueles voltados ao desenvolvimento de novas tecnologias e ao aproveitamento de minerais estratégicos.
André Pimenta lembrou que a China instalou seu primeiro escritório dedicado a terras raras em 1975, destacando o pioneirismo do país asiático no desenvolvimento desse segmento. Segundo ele, experiências internacionais, como as adotadas por Austrália e Canadá, podem contribuir para ampliar a discussão brasileira sobre o tema.
Cesário, por sua vez, avaliou positivamente a previsão de um Fundo Garantidor no PL 2780, desde que sua utilização esteja associada a critérios técnicos e à responsabilidade na aplicação dos recursos. “Desde que o Estado aja com prudência e com respaldo técnico”, pondera.
Perspectivas para o futuro
Ao final do painel, os debatedores convergiram para a compreensão de que o desenvolvimento de minerais críticos exige mais do que ampliar a produção mineral. É preciso estruturar também as etapas industriais associadas a esses recursos, com investimentos em tecnologia, qualificação profissional, engenharia de projetos e instrumentos financeiros capazes de conduzir iniciativas à escala produtiva.
A consolidação desse segmento passa, ainda, pela articulação entre governo, setor mineral, indústria e instituições de pesquisa. A cooperação entre esses atores pode contribuir para reduzir gargalos tecnológicos, ampliar a capacidade nacional de processamento e criar condições mais favoráveis à agregação de valor no país.
Na avaliação de Pablo Cesário, esse ambiente precisa combinar estímulo aos investimentos com segurança e previsibilidade para os agentes econômicos. “Se assustarmos os investidores, o setor trava”, ressalta.
Patrocínios e apoios da EXPOSIBRAM 2026
A EXPOSIBRAM 2026 conta com o patrocínio de importantes empresas e instituições dos setores mineral, industrial e de tecnologia. Na categoria Master, o evento tem como patrocinadora a BHP e a Vale. Na categoria Diamante, participam Aeolus e Ero Copper. Entre os patrocinadores Platina estão Anglo American Brasil, BVP, CMOC Brasil Mineração, Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (CODEMGE), Compañía Electro Metalúrgica S.A., Huawei do Brasil, Loctite, Lundin Mining, Norsk Hydro e Taboca. Na categoria Ouro, figuram AngloGold Ashanti, Kinross Brasil e Nexa Resources. Entre os patrocinadores Prata, estão ArcelorMittal Brasil, Geosol e Mineração Usiminas. Na categoria Bronze, apoiam o evento Accenture, Alcoa, Appian Capital Brazil (Atlantic Nickel), Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), Del Rey Minerals, Dinâmica, DXC Technology, Hatch, Hexagon Mining, Mosaic Fertilizantes, Pirobras, Samarco e St George Brasil.
A EXPOSIBRAM 2026 também conta com amplo apoio institucional de entidades como Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), ABIAPE, Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (ABIFER), ABIMAQ, ABIMEX, ABM (Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração), Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (ABRACE Energia), Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (ABRATE), Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral (ABREMI), Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), Agência para o Desenvolvimento da Indústria Mineral Brasileira (ADIMB), Amcham Brasil, Agência Nacional de Mineração (ANM), APEMI, CAEMG, Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), Confederação Nacional da Indústria (CNI), Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO), Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), International Geosynthetic Society (IGS), Movimento pela Inovação na Mineração e Desenvolvimento (MINDE), Mining Hub Brasil (Mining Hub), OAB SP (Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo), Organismo Latino-Americano de Mineração (OLAMI), RMMG, Sociedade Brasileira de Geofísica (SBGf), Serviço Geológico do Brasil (SGB), SGB Núcleo Bahia-Sergipe, Sindicato das Indústrias Minerárias do Estado do Pará (SIMINERAL), Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado de Minas Gerais (SINAEES-MG), Sindicato da Indústria Mineral do Estado de Minas Gerais (SINDIEXTRA), Sindicato da Indústria de Rochas Ornamentais, Cal e Calcários do Estado do Espírito Santo (SINDIROCHAS) e Women in Mining Brasil (WIM Brasil).
No apoio editorial, participam veículos especializados como 2A+ Mineração, BNews, Brasil Mineral, Cidades e Minerais, CKS Online, Climatempo, Conexão Mineral, EAE Máquinas, In The Mine, Minera Minas, Mineração & Sustentabilidade, Minérios & Minerales, Notícias de Mineração Brasil, Podcast da Mineração, Por Dentro de Minas, Radar Mineração, Revista Amazônia, Revista Areia & Brita, Revista M&T, Revista Novo Solo e The Mining.