Pequim usa obras para estimular economia
06/06/2012
Quando o prefeito de Zhanjiang saiu do influente Ministério de Planejamento Econômico da China poucos dias atrás, estava tão exultante com o documento de aprovação em sua mão para uma usina siderúrgica de US$ 11 bilhões que beijou o pedaço de papel.
A cena, capturada por equipes jornalísticas locais e disseminada de forma “viral” na internet, colocou em evidência a enxurrada de projetos aprovados por Pequim nas duas semanas desde que o primeiro-ministro do país, Wen Jiabao, defendeu medidas para incentivar o crescimento.
Embora Pequim não tenha chegado a declarar oficialmente um pacote de “estímulos” como o fez em 2008, é possível sentir uma mudança clara de estado de ânimo na capital chinesa.
Nas últimas duas semanas, o governo parece ter acelerado projetos de infraestrutura para impulsionar a economia chinesa e anunciou uma série de programas – desde subsídios até mudanças tributárias – voltados a intensificar a expansão.
Mesmo antes do discurso do premiê Wen, a Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional (CRDN), a poderosa agência federal chinesa de planejamento, vinha silenciosamente acelerando as aprovações para obras de infraestrutura.
Pequim vem tentando há anos elevar o consumo doméstico e reequilibrar a economia em favor de um crescimento alimentado pelos consumidores, mas a atual iniciativa, que provavelmente beneficiará setores industriais, poderia reverter esses esforços.
O volume de aprovações, como a concedida ao prefeito de Zhanjiang, dobrou entre janeiro e abril deste ano em comparação aos mesmos meses de 2011, somando-se a uma tendência de aumento que já vinha desde o fim do ano. Além das aprovações, Pequim também vinha, sem grande alarde, abrindo a carteira: os gastos do governo federal subiram 27% nos primeiros quatro meses do ano em comparação a igual período de 2011, quase o dobro do ritmo do crescimento da arrecadação.
Entre os setores que vêm sendo mencionados nos anúncios oficiais como parte da investida de estímulos estão os de energias “limpa”, nuclear, hidrelétrica e solar e os de siderurgia, ferrovias e saneamento. Embora a dinâmica de cada setor seja ligeiramente diferente, economistas temem que o fluxo de dinheiro novo amplifique as distorções de mercado nessas áreas, que já são pesadamente dominadas pelo governo.
A siderurgia é um exemplo claro. Depois dos estímulos de 2008, a China viu a demanda por aço disparar – juntamente com os preços do minério de ferro e a procura por outras matérias-primas. O posterior declínio repentino da demanda, no entanto, deixou o setor com grande excesso de capacidade.
No primeiro trimestre deste ano, o lucro das siderúrgicas estatais chinesas caiu 68% em relação ao mesmo período de 2011, sendo que muitas operavam no vermelho. Apesar das condições negativas, as últimas duas semanas tiveram um anúncio após o outro de investimentos multibilionários e novas usinas siderúrgicas. “Algumas pessoas estão bastante preocupadas”, diz um operador do mercado de aço, que trabalha em Shandong. “Todos esses projetos podem ampliar um pouco a demanda no curto prazo, mas tornarão a situação pior no longo prazo.”
O aumento nas aprovações neste ano pode ser atribuído, em parte, à base fraca de comparação. No início de 2011, a burocracia de Pequim estava quase parada, com os ministérios aguardando a aprovação do novo plano quinquenal.
A maioria dos projetos aprovados recentemente estava aguardando aval havia anos, precisando apenas do carimbo oficial de Pequim para seguir adiante. Em Zhanjiang, as obras no local da nova usina da Baosteel começaram apenas sete dias depois do beijo notório, sendo que o projeto estava sendo planejado havia pelo menos dez anos.
Começam a surgir sinais de que Pequim vem tentando evitar os excessos dos estímulos de 2008. As novas políticas incluem a ampliação dos subsídios para eletrodomésticos e a criação de um para as compras de carros, dentro dos esforços para encorajar o consumo. As autoridades também tentam abrir mais canais para os investimentos privados nos setores bancário e de energia, áreas normalmente dominadas pelas estatais.
As recentes aprovações da CRDN também incluíram muitos projetos – como aeroportos ou empreendimentos municipais de calefação – que já estavam programados como parte do atual plano quinquenal.
Os que trabalham em setores como o siderúrgico dizem que, assim como nos estímulos de 2008, as estatais deverão ser as empresas que mais se beneficiarão com a mudança de orientação das políticas. Zhang Lin, analista na Lange Steel, diz que o rumo político é claro: “O Estado avança e o setor privado retrocede”.
Valor Econômico