Para Aécio, PT não soube ousar
04/01/2012
Após quase oito anos como o mais bem avaliado governador da história de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB) foi eleito no final de 2010 para o Senado Federal com mais de 7,5 milhões de votos, o que lhe garantiu o primeiro lugar nas urnas. Ao final do seu primeiro mandato como senador, Aécio Neves critica, nessa entrevista, a paralisia do governo federal, postura que ajuda a entender porque ele vem sendo chamado de novo líder da oposição. Segundo o senador, a presidente tem seu governo paralisado por denúncias de corrupção, o que impede avanços em reformas e em áreas essenciais para a população.
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P – Como o senhor avalia o desempenho do primeiro ano do governo de Dilma Rousseff?;
R – O primeiro ano é sempre o melhor momento para um governante realizar mudanças, sobretudo as consideradas mais difíceis, exatamente pelo respaldo dado pelas urnas e pela base política que o apoia. Infelizmente encerramos 2011, primeiro ano do governo da presidente Dilma, sem que qualquer projeto estruturante fosse apresentado ao país. Não fizemos, por exemplo, a reforma tributária tão necessária ao setor produtivo brasileiro, não avançamos nos investimentos em infraestrutura. O Brasil aparece na 53ª posição no ranking mundial de competitividade. Na qualidade da infraestrutura somos a 104ª economia. Até o início dos anos 80, o Brasil investia cerca de 5% do PIB em infraestrutura. Nosso investimento caiu para 2%, parou, mas a carga tributária na última década foi 5,6% do PIB, mais alta do que na década de 90. Somamos nove anos de um mesmo governo sem que a agenda do país avançasse no fundamental. Ou melhor, sem avanços na agenda realizada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, nos governos do PSDB, onde efetivamente ocorreram as reformas que estruturaram a economia brasileira. O PT abdicou de ter um projeto de país para se dedicar à manutenção do poder, com quaisquer que sejam os aliados. Lamentavelmente para os brasileiros, o governo atravessou o ano respondendo a denúncias de corrupção. Demitiu ministros e funcionários quando a imprensa noticiou desvios e houve reação pública. Tomando emprestado um termo usado pela presidente, digo que o malfeito para este governo só é malfeito quando vira escândalo na imprensa. Antes de virar notícia, estava bem feito.
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P – A que o senhor atribui essa paralisia do governo federal?
R – O Governo do PT perdeu a oportunidade de ousar, de fazer as grandes reformas que permitiriam ao Brasil crescer muito mais. Faltou coragem política, mas também faltou gestão e profissionalismo na condução do governo. O que vimos foi um aparelhamento absurdo da máquina pública, como jamais se viu antes na história do país, e como consequência, a ineficiência, gastos abusivos e casos de corrupção que derrubaram seis ministros. Não há nenhum programa de governo que traga maiores avanços sociais do que a correta gestão dos recursos públicos. A gestão pública de qualidade é a mais poderosa arma que temos para enfrentar dois perigosos inimigos do nosso povo: a corrupção e o desperdício. A gestão pública moderna exige estabelecimento de metas, fiscalização atenta, cumprimento de prazos e premiação pelos bons resultados. O PSDB aposta na gestão pública de qualidade, na meritocracia, numa gestão por resultados, com metas. Acreditamos nos resultados e mostramos isso nos nossos governos. Eu mostrei isso aqui em Minas Gerais, como é possível você administrar com o Estado enxuto, estabelecendo e alcançando essas metas e melhorando a vida da população. Enquanto isso, o PT prefere o aparelhamento da máquina pública e os resultados que estamos vendo aí pela imprensa.
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P – O senhor apresentou proposta no Senado para aumentar os royalties do minério. Essa á uma matéria difícil e antiga. O senhor acha que há chances de aprová-la?
R – Estou confiante que sim. A verdade é que os municípios mineradores vêm passando por uma grave injustiça já há muitos anos. Atualmente, as empresas mineradoras compensam estados e municípios que sofrem os impactos da atividade em até 3% sobre seu faturamento líquido. Isso é muito pouco. Nossa proposta é que essa compensação possa chegar a 5% sobre o faturamento bruto, e não líquido. Somente essa mudança geraria uma transformação imensa nos nossos municípios. E não reivindicamos nada de absurdo, apenas o que é justo. Queremos preservar os interesses das futuras gerações, afinal, o minério é finito. O dinheiro dos royalties permite a recuperação das áreas verdes degradadas e garante a execução de políticas públicas de apoio à população após o esgotamento das jazidas minerais. Para tornar isso mais claro, dou um exemplo. Há uma grande diferença na compensação entre a exploração de petróleo e de minério, ambos recursos naturais esgotáveis. O petróleo rendeu à União e aos estados e municípios produtores R$ 21,5 bilhões em royalties ano passado. No mesmo período, foi pago pouco mais de R$ 1 bilhão como compensação pelas empresas do setor mineral.
Click Folha