País tenta refazer cadeia produtiva de terras-raras
23/09/2013
O Brasil corre atrás para reconstruir a cadeia produtiva da exploração de terras-raras, conjunto de 17 elementos químicos bastante utilizados na indústria de alta tecnologia e que são encontrados em minerais. Empregados na produção de monitores de vídeo, discos rígidos de computadores, telas de celulares, diodos de emissão de luz (LED), ligas metálicas e superímãs, as terras-raras se tornaram um mercado estratégico para a indústria eletroeletrônica mundial. O Brasil foi um produtor pioneiro de terras-raras em escala industrial e chegou a ocupar o posto de maior produtor mundial entre as décadas de 1940 e 1950. Hoje a China responde por cerca de 85% da produção mundial.
O secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Álvaro Prata, afirma que a China se aproveita de sua posição e restringe a oferta, o que provoca grande oscilação de preços. “Os países entenderam que não podem ficar dependendo da China”, afirma.
Em 2011, o governo incluiu as terras-raras na lista de minerais estratégicos para o Brasil em função de sua associação com as novas tecnologias, de acordo com o Plano Nacional de Mineração 2030. Como gerador de divisas, o mercado ainda é pequeno, com vendas mundiais registradas em torno de US$ 3 bilhões em 2011 e com estimativa de atingir US$ 10 bilhões no médio prazo, diz Prata. O Brasil teria uma fatia de US$ 40 milhões do total. “Comparado a outros mercados, como de petróleo e minério de ferro, é um mercado pequeno, mas é um mercado estratégico”, afirma.
Segundo Prata, a intenção do governo é recuperar a competência do Brasil em terras-raras do ponto de vista industrial e de negócios, mas também de desenvolvimento tecnológico. O governo acabou de lançar um edital de R$ 9 milhões em parceria com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) para financiar projetos de pesquisa sobre terras-raras. O objetivo é recompor toda a cadeia, desde a extração dos minerais até a obtenção de óxidos e a partir destes óxidos a produção de ligas, que são utilizadas na indústria de eletroeletrônicos.
Um dos projetos mais adiantados associado à exploração de terras-raras é o da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), localizada em Araxá (MG). Segundo o presidente da CBMM, Tadeu Carneiro, a empresa já produz em escala industrial 1.200 toneladas por ano de óxidos de terras-raras na forma de sulfato duplo. Além deste produto, a CBMM está investindo R$ 60 milhões para o desenvolvimento de tecnologia necessária para a obtenção de produtos finais de terras-raras em escala piloto. Carneiro ressalta que o principal desafio da cadeia é o desenvolvimento de tecnologia para a obtenção dos diferentes produtos finais de terras-raras e sua implementação em escala industrial.
Segundo ele, os minérios de terras-raras estão longe de ser raros. Os 17 elementos são encontrados de forma abundante no Brasil, com reservas existentes em Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Bahia, Piauí e Amazonas. Ao contrário de outros minérios, estes elementos encontram-se na natureza de forma mais dispersa, o que dificulta sua exploração. “Raro é o conhecimento tecnológico para transformá-los em produtos de maior valor agregado. No caso dos óxidos de neodímio e praseodímio, duas das terras-raras, a companhia está desenvolvendo a tecnologia para a obtenção dos metais a partir destes óxidos para fabricação de superímãs”, diz. A pesquisa está sendo feita em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Outros projetos em andamento no Brasil são da Mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), que prevê investir R$ 1,2 milhão em dez anos, com início das operações previsto para 2016, e da canadense Mbac Fertilizantes, também em Araxá. Com investimento inicial de US$ 406 milhões, a Mbac planeja explorar óxido de terras-raras e produzir ímãs a partir de 2016. A produção inicial deverá ser de 8,75 mil toneladas de óxidos de terras-raras por ano, devendo dobrar após 5 anos. A iniciativa brasileira ainda é pequena perto da Austrália. Apenas em um projeto, da Lynas Corporation, US$ 800 milhões estão sendo investidos para a produção de 20 mil toneladas anuais.
No Brasil, as jazidas conhecidas de terras-raras apontam reservas de 40 mil toneladas. O Serviço Geológico do Brasil deve divulgar um novo estudo em 2014 e a expectativa é de que o volume aumente.
Valor Econômico