O avanço chinês
24/08/2010
O ex-prefeito de Belo Horizonte Jorge Carone Filho manifestou-me em telefonema de dias atrás, duas preocupação com relação à venda de terras brasileiras à China para exploração de minério de ferro. É, certamente, uma inquietação muito legítima porque extrapola as perspectivas da nação de aumentar a exportação, porque se está alienando partes do território.
Não se pode falar no tema sem recorrer à histórica resistência do presidente de Minas Gerais, Artur Bernardes, no caso da Itabira Iron. O acadêmico e ex-deputado federal Milton Reis, em “A Trajetória do Poder”, analisa a questão em um parágrafo, suficiente para esclarecer do que se trata.Mencionada empresa conseguira do governo brasileiro, na época de Epitácio Pessoa, autorização para explorar o minério brasileiro a preço praticamente simbólico. “Bernardes, com o acendrado nacionalismo demonstrado em todo o decorrer da vida, revelou-se contra os termos leoninos do contrato e conseguiu impedir que fosse firmado, por ser lesivo ao país e, principalmente, a Minas Gerais.
Ele entendia que Minas e o Brasil precisavam de usinas siderúrgicas, bem como de técnica aprimorada para a extração e exploração do minério, e, sobretudo, a administração deveria ser feita por brasileiros”.
Ora, o Brasil tem de estar atento ao que lhe é essencial: o seu território, principalmente em se tratando da China, pelo tipo de regime que adotou, que não se resume à quase servidão de seu povo.
O mundo se viu encantado com o fantástico desenvolvimento do país asiático, um dos mais poderosos de nosso tempo. É realmente de se admirar, mas se há de examinar de que modo se fez esse salto mágico para superar poderosas nações do Ocidente.
O escritor-médico Marco Aurélio Baggio faz raciocínio: “A mídia enaltece a prosperidade chinesa, embasada pelo crescimento médio do PIB, em 10% sustentado há cerca de 30 anos: 1979-2008. Comentaristas internacionais não cansam de propalar que a China será a segunda potência econômica do mundo ou, mesmo, que superará os 15 trilhões de dólares do produto interno bruto dos Estados Unidos da América.
É próprio da natureza humana criar ilusões -;dragões – para com eles maravilhar-se e temê-los. Há 15 anos, Lester Thurow em seu livro “Cabeça a cabeça”, previa que o Japão seria a economia preponderante na virada do século vinte, vencendo a competição com os EUA e a União Europeia. Sua previsão falhou. Há 15 anos, o Japão patina sobre suas contradições, com crescimento pífio.
Em sua marcha para os países que detenham potencial de matérias-primas para sustentar o seu desenvolvimento, a China não mede esforços e atitudes. Não quer cingir-se mais a adquirir o produto, mas a própria terra que o contém, como no caso das Itaminas, cuja mina em Sarzedo foi vendida, na própria região metropolitana de BH, ao consórcio chinês ECE-Birô de Exploração e Desenvolvimento Mineral do Leste da China, uma estatal, evidentemente.
O dragão inquieta. Delfim Netto escreveu, há dias: “A China tem hoje, uma presença externa semelhante à dos europeus nos bons tempos coloniais: ela invadiu praticamente todo o continente africano”. Mas não só a África está em sua mira, e seus negócios com o Brasil precisam ser pensados.
Delfim disse mais: “Não devemos admitir que as empresas estatais da China comprem nossas jazidas de ferro, manganês, ou porções de terra para a produção de alimentos”. Mas não só alimentos, diríamos nós. Minério de ferro não é para sustentar a agricultura, até prova em contrário.A China investirá US$ 14,8 bilhões no Brasil este ano; 42% será em Minas Gerais, ou seja, R$ 6,2 bilhões, a maioria dos recursos no setor mineral. O país asiático necessita de minerais, alimentos e energia e irá buscá-los onde estiveram, pelo preço possível.
O ex-ministro João Camilo Pena raciocina sobre as compras da China: “É completamente diferente de uma empresa privada atuar em outro país ou até mesmo comprar um espaço de terra. Nesse caso, não é uma organização e, sim, uma nação”.;
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