NOTÍCIAS

"Não dá mais para a China carregar o mundo nas costas"

Notícias Gerais

04/09/2015


China, o principal cliente da Vale e o maior consumidor mundial de commodities, não mudaram a visão de Murilo Ferreira, presidente da mineradora brasileira, sobre o país asiático. Ele mantém o otimismo com a China e reconhece que o país passa por mudanças, como o crescimento do setor de serviços no PIB. Diz que a desvalorização do yuan e a queda das ações na bolsa chinesa foram mal interpretados pelo mercado. Elogia o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e diz não ver razões para o “impeachment” da presidente Dilma Rousseff. Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Ferreira ao Valor.
Valor: O senhor tem mantido uma visão otimista em relação à China. Mantém esse otimismo depois dos últimos acontecimentos, com ajustes na bolsa e no câmbio?
Murilo Ferreira: Cada vez mais mantenho meu posicionamento sobre a China. Não existem reformas que levem a um processo indolor. Esse processo [de ajustes] está em curso e é mais ativo e realista do que no governo anterior. Vejo com otimismo porque as coisas, quando enfrentadas no devido tempo, mostram estar no caminho certo. Muito se discute sobre a meta do governo de [crescer] 7% ao ano. Vejo profunda confusão no mercado sobre o que significa os 7%. A maioria das pessoas, ao citar os 7%, querem falar do crescimento industrial, quando estamos falando do Produto Interno Bruto [PIB] da China.
;
Valor: 7% é a meta de crescimento fixada pelo governo chinês para o PIB neste ano.
;
Ferreira: O PIB é composto por vários setores: agrícola, industrial e de serviços. O que está havendo é uma perda relativa da importância da indústria vis¬à¬vis os serviços, o que não é novidade. Na primeira metade de 2015, o setor de serviços cresceu 8,4% na China, duas vezes e meia o setor extrativo. Estamos em processo de mudança dos componentes do crescimento chinês. Nos Estados Unidos, o consumo corresponde a dois terços do PIB, na China é metade disso, 33%. Então, percebemos que a sociedade chinesa está passando por uma transformação e o governo toma essas atitudes em cima dessa transformação. Eu tenho convicção de que a China não vai ser nem UK [Reino Unido], nem USA [Estados Unidos]. Não vai abdicar do setor industrial para se tornar uma sociedade de serviços. Digo isso porque esses dois países foram obrigados a abdicar dos setores que não eram mais competitivos e acho que a China está longe disso. Vai continuar sendo competitiva em custos durante muito tempo.
;
Valor: Há risco de pouso forçado na China?
Ferreira: Ao invés de usar percentuais, prefiro lembrar que a China tem crescido entre US$ 750 bilhões e US$ 850 bilhões por ano no seu PIB e vai continuar crescendo. Agora, a China passa por processo de ajustes. As companhias endividadas, inclusive estatais, estão sofrendo com o aumento da taxa de juros que já ocorreu e que agora está até sendo reduzida. Mostra que o governo não está sendo condescendente com suas estatais. As estatais estão sendo estranguladas por condições financeiras que foram construídas em momento de pouca disciplina.
;
Valor: Como viu a desvalorização recente do yuan?
Ferreira: O mundo ocidental fez interpretação rápida, precipitada e errada que se tratava de oferecer condições para melhorar as exportações chinesas. Falso. Foi demonstração clara do governo chinês que eles tinham o objetivo da conversibilidade da moeda. O governo chinês não queria uma percepção de um yuan completamente indexado ao dólar americano, como se observou nos últimos anos, porque vinham [as moedas] caminhando tão juntas que propiciou, inclusive o `carry trade`, ou seja, as pessoas tomavam financiamento e apostavam na taxa de câmbio futura e era ganho certo porque bastava pegar o diferencial de taxa de juros. Hoje, com essa desvinculação, estão sendo desmontadas posições imensas de `carry trade`, que é uma anomalia na economia. O governo sinalizou que o câmbio não anda para um lado só. Mas isso não significa que o governo estivesse procurando uma situação para acelerar a exportação e intervir na taxa de câmbio, como foi precipitadamente interpretado.
Valor: E o problema na bolsa?
;
Ferreira: Esse é um erro ainda mais caótico, porque a bolsa de valores na China tem valor baixo na poupança dos chineses. Menos de 5% da poupança das pessoas estão no mercado acionário. O setor bancário tem pouca exposição ao mercado de ações.
;
Valor: Mas havia uma bolha…
;
Ferreira: Houve uma grande alta das ações, muita gente enxergando aquilo como uma bolha. Acho até que talvez o governo pode ter ficado um pouco cego para isso, mas não posso chamar de bolha porque sua participação é modesta na economia. Outro ponto é sobre o colapso do setor imobiliário, o que eu discordo. O mercado imobiliário cresceu em função da migração do campo para as cidades e pelo aumento da renda das pessoas. Com esses fundamentos, não se justifica chamar de bolha. Tanto é que já temos quatro meses seguidos de alta generalizada nos preços de imóveis. O próximo passo é o aparecimento de construção de novas residenciais e edifícios. Outro ponto é o desemprego. Não temos nenhum sinal na China que o desemprego está aumentando. Se percebe transferência de nível de emprego do setor industrial para o setor de serviços. Isso é claro, mas não há indicador de desemprego. No investimento sim, eu concordo. O investimento se faz cada vez menos pujante na China porque o país não precisa investir tanto como no passado em ativos fixos, incluindo obras de infraestrutura. Haverá naturalmente redução porque muito foi feito.
Valor: Qual o efeito desse movimento para as commodities?
;
Ferreira: No nosso caso [Vale], o fator mais importante é o mercado imobiliário. Vemos, em cenário não tão longínquo, uma recuperação do mercado imobiliário [na China]. Tem que lembrar que os ajustes na economia têm provocado uma espiral de baixa nos preços de commodities. Mas não acredito que vamos permanecer nessa posição de baixa. Acho que haverá recuperação. E repito o que venho dizendo desde 2012: não vejo mais exuberância na China, mas vejo um crescimento benigno. Falei muitas vezes do fim do superciclo [de commodities], mas houve uma redução de atividade mais aguda para fazer, inclusive, uma reforma no setor financeiro, o que acho a mais importante atitude do atual governo [chinês]. Havia um sistema financeiro paralelo, chamado “shadow banking”, que representava cerca de 20% do sistema financeiro chinês, o que foi reduzido para 4% depois que o governo chinês colocou US$ 4 trilhões em um programa de lançamento de títulos que poderiam ser utilizados pelos bancos como [garantias] colaterais e que dão suporte à dívida de Estados e municípios. Essa dívida escondida foi transformada em títulos públicos com conhecimento e contabilidade do governo.
Valor: Quais foram na sua visão as consequências desse ajuste?;Ferreira: Houve redução de atividade de setores mais atingidos. Os produtores de commodities minerais na China sofreram, como outros países. O Brasil perdeu receita em produtos importantes das exportações e com isso estamos em crise econômica de proporções importantes. O Chile, Colômbia, México, África do Sul e Indonésia também enfrentam dificuldades. Então estamos em redução do ritmo do comércio internacional muito grande. Então a crise não está isolada na China, mas temos uma crise generalizada. Não dá mais para a China carregar o mundo nas costas como em 2009.
Valor: A Vale vê desacelerar a demanda por commodities na China?
;
Ferreira: Não. Nos últimos meses, houve estabilidade no preço do minério de ferro.
Valor: O preço do minério de ferro chegou ao fundo do poço?
Ferreira: O minério de ferro não retornará aos preços anteriores, entre US$ 150 e US$ 200. Até mesmo atingir patamar de US$ 100 [por tonelada] hoje é difícil. Mas a situação do minério de ferro nas últimas semanas é bem melhor do que vimos há quatro meses. Nos últimos 24 meses, agora é quando estou com meu maior ânimo.
Valor: Por quê?
Ferreira: Estou mais confiante porque noto que muitos dos ajustes foram feitos. A China há três anos produzia 350 milhões de toneladas [de minério de ferro] e no ano passado produziu 240 milhões de toneladas. Fui das poucas vozes que alertaram investidores que havia grande probabilidade de a China estar abaixo de 200 milhões de toneladas anuais. E as estatísticas de nossa inteligência são de que a China trabalha hoje abaixo de 200 milhões de toneladas. Houve ajustes na China, no México, no Canadá, no Brasil. Vejo cenário mais delineado com os players mais eficientes prevalecendo.
Valor: A Vale está revendo suas metas de preços e vendas?
Ferreira: Trabalho focado em custo, não determino preço, mas margem. Tenho que trabalhar com margem e temos mostrado isso todo trimestre não só em custo de produção, mas também nas despesas gerais, administrativas e de vendas. Em 2011, [essa rubrica] na Vale era de US$ 1,92 bilhão. Hoje ouço projeções que vai ficar entre US$ 500 milhões e US$ 600 milhões em 2015. Levo esse mérito à nossa equipe, que trabalhou nesse período com a premissa de que o superciclo estava encerrado e que não íamos mais trabalhar focados em volumes, mas em margem.
;
Valor: Este ano a Vale vai atingir a meta de produção. E em 2016?
;
Ferreira: Vamos produzir entre 340 milhões de toneladas [de minério de ferro] e 376 milhões de toneladas e vamos privilegiar margem sobre o volume.
;
Valor: O Brasil está tecnicamente em recessão. Está preocupado com a paralisia do país?
;
Ferreira: Evidentemente. Mas vejo isso como consequência do que já disse. O Brasil foi beneficiado pela globalização e pela alta das commodities. Me referi a esse ciclo como o período das frutas doces da globalização. Agora estamos na fase das frutas amargas. Todas as empresas que foram afetadas pela queda nos preços das commodities vão pagar menos impostos. Então o país tem menos receita, mas o país tinha indexado um grande dispêndio a essas receitas que se provaram não serem permanentes. Temos hoje situação econômica em que a receita de governo cai, mas há obrigações legítimas com uma sociedade que passou a ter uma série de benefícios que não tinha e deseja continuar a tê-los. Mas onde estão os recursos?
;
Valor: Qual a saída para fazer o ajuste fiscal no Brasil?
;
Ferreira: A solução para o equilíbrio das contas públicas é de toda a sociedade, não é obrigação da presidenta [Dilma Rousseff], do ministro Levy [Joaquim Levy, da Fazenda] ou do ministro Nelson Barbosa [Planejamento]. É obrigação de toda a sociedade colaborar no sentido de qual seria o melhor caminho. A sociedade brasileira tem que entender que, assim como tivemos situação ganha¬ganha com a alta das commodities, entramos em período de perde¬perde. Então, nesse pacto de harmonia social que qualquer país precisa ter, precisamos colaborar abrindo mão de muitas coisas. Cada setor vai ter que colaborar. E a canalização desse esforço tem que ser expressa pelos membros do Congresso Nacional e do governo para chegar a um consenso. A recuperação brasileira terá que ocorrer via exportações, embora o fluxo de comércio internacional seja menor do que há alguns anos. Significa que uma recuperação de fluxo de exportações é mais demorada e difícil.
Valor: Como avalia o papel do ministro Levy no ajuste?
;
Ferreira: Tenho muito respeito pelo Joaquim [Levy], tem todas as condições para o cargo que exerce, tenho muita confiança nele, assim como no Nelson Barbosa, que é uma pessoa muito preparada. Meu desacordo em relação à política econômica é que no momento em que a economia mundial vinha em desaceleração, o Banco Central elevou a taxa de juros sistemática e excessivamente apesar dos sinais de enfraquecimento de economias importantes do mundo, com um crescimento mundial revisado para baixo. Entendo que essas decisões devem ter sido bem analisadas porque eles [BC] têm modelos elaborados para saber as tendências. Mas como observador não vejo como uma economia em recessão seja merecedora de taxa de juros tão elevada.
Valor: O que o país precisa fazer para crescer de forma sustentada?
Ferreira: Não haverá milagres. O ajuste provocado por menores receitas do governo e das empresas e o fato de grandes companhias terem que reduzir investimentos significa um nível de desemprego maior e perda de renda. E com isso não haverá um mercado interno tão forte como foi há alguns anos.
Valor: Como avalia a crise política que a presidente Dilma Roussef enfrenta? Esta semana foi protocolado na Câmara o 21º pedido de impeachment da presidente…
;
Ferreira: Concordo com o editorial do `New York Times` publicado há duas semanas. O jornal fez menção ao fato de que o Brasil, apesar dos problemas, tem mostrado apreço pela lei. E este talvez seja o ponto mais forte do Brasil, ter se mostrado uma democracia sólida. Só se fala em posição política como esta [impeachment] em casos em que esteja absolutamente tipificado nos diversos artigos da lei. Até o momento, que eu saiba, não existe nada de concreto contra a presidenta. Vamos fazer impeachment porque parte da população, ainda que expressiva, não está satisfeita com os rumos do país? Isso foge da regra constitucional.
;

Valor Econômico


Compartilhe:

Assine nossa newsletter e fique por dentro das últimas notícias do setor INSCREVER