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Na foto, com Lula

Notícias Gerais

14/07/2008


Com um dia de diferença, os presidentes da Bolívia, Evo Morales, e da Colômbia, Álvaro Uribe, vão encontrar-se com Luiz Inácio Lula da Silva em cidades próximas á fronteira do Brasil – a boliviana Riberalta e a colombiana Leticia. Em ambos o casos, pretextos à parte, o principal propósito do encontro é o mesmo: sair em uma foto com Lula, como trunfo político e sinal de apoio do governo de maior influencia na região. Na Bolívia, a foto terá um auto-convidado: no sábado, Morales recebeu um telefonema de Caracas, com o pedido do presidente venezuelano, Hugo Chávez, para participar do encontro com Lula.

Nos dois eventos, a iniciativa partiu dos presidentes andinos. Morales, durante a reunião do Mercosul, há duas semanas, pediu a Lula para transformar em reunião presidencial o que seria um mero anúncio diplomático. Os dois oficializarão a decisão brasileira de destinar US$ 230 milhões em empréstimos do BNDES à construção de quase 600 quilômetros de estradas do projeto Hacia el Norte, que ligará a localidade de Rurrenabaque, perto de La Paz, a Riberalta, 100 quilômetros distante da fronteira.

É duplamente simbólico esse pedido. Primeiro, é um sintoma do papel moderador do brasileiro para as forças políticas do continente; algo evidenciado com o manifesto desejo de Morales em trazer Lula ao seu lado, no momento em que busca saída para o impasse político na Bolívia, às vésperas de um “referendo revocatório” no qual o povo deverá opinar sobre a manutenção, no poder, do próprio Morales e dos nove “prefectos” (governadores) dos departamentos bolivianos, a maioria em franca oposição a La Paz.

O anúncio do empréstimo do BNDES também marca uma diferença colossal no discurso do governo de La Paz, que nos primeiros meses de gestão classificava como uma forma de colonialismo a vinculação entre os créditos concedidos pelo BNDES e a necessária contratação de empresas brasileiras para as obras financiadas – uma exigência legal, aliás, já que o BNDES opera com recursos recolhidos das folhas de pagamento no Brasil. O dinheiro do banco, que deverá financiar uma construtora brasileira, é saudado por Morales, agora, como um gesto de amizade do governo brasileiro.

O Brasil aparece, assim, como patrocinador de uma obra de infra-estrutura também simbólica, que ligará o altiplano boliviano, centro do poder, ocupado por Evo Morales e os movimentos sociais que o apóiam, e as regiões de Beni e Pando, onde grandes produtores sustentam movimentos de autonomia em relação à capital.

Moderação do brasileiro atrai Bolívia e Colômbia

Coincidentemente, há uma virtual paralisação nas relações econômicas dos dois países, apesar dos anúncios oficiais em contrário. Mesmo pressionada por La Paz, a Petrobras tem sido tímida em investimentos, praticamente limitando-os ao necessário para garantir o fornecimento de gás ao Brasil e dar alguma substância aos discursos de amizade mútua dos dois governos. Anúncios de novos investimentos, como os da Braskem em instalações petroquímicas, não saíram ainda do território das intenções.

O referendo boliviano que se realizará no dia 10 de agosto põe em cheque os mandatos dos governantes central e locais; Evo Morales tem apoio suficiente para manter o posto, mas seus opositores, que deixaram aprovar a iniciativa e agora se opõem a ela, vêem o risco de que apenas Santa Cruz mantenha nos cargos os atuais opositores a La Paz. No fim de semana, Evo Morales deu declarações conciliadoras, acenando com medidas para respeitar as “autonomias” reivindicadas pelas regiões – hoje obrigadas a ceder receitas e poder ao centralizado governo boliviano.

A aproximação com Lula pode abrir caminho para maior participação do brasileiro nas negociações de reconciliação interna na Bolívia, ameaçada de séria crise política pela incapacidade do entorno de Morales de encontrar uma fórmula de convivência com a elite local, especialmente em Santa Cruz, que concentra pouco mais de um terço do território e da população boliviana, 30% do PIB do país, 65% das terras cultivadas e 75% da produção agropecuária.

Há rumores, na Colômbia, de que também lá Lula pode ser convidado a tomar parte nos esforços de Uribe para um acordo final, com a combalida guerrilha das Farc desmoralizada com o recente resgate de reféns importantes, entre eles a ex-candidata à presidência Ingrid Bettancourt. Um aliado próximo de Uribe garante que o colombiano ficou encantado com as conversas com Lula durante o encontro da Unasul, em Brasília, quando o brasileiro aceitou participar da festa de independência da Colômbia, em 20 de julho.

Lula irá à Colômbia com uma missão de mais de 40 empresários, na maioria gente que já têm negócios no país, nos setores de mineração, construção civil e serviços. É crescente o interesse de investidores brasileiros no país, a principal economia da região andina, e aparentemente é real o empenho do governo Uribe em atrair esses investimentos – ainda que os empresários locais pareçam temerosos da concorrência e da escala do setor privado brasileiro. Montado em 91% de popularidade, Uribe busca alternativas econômicas para a Colômbia, e mantém o Brasil no radar, mas ambos os países ainda não descobriram um verdadeiro ponto de apoio para ampliar a relação bilateral.

Tanto na Bolívia quanto na Colômbia, o esforço diplomático brasileiro pela manutenção das boas relações com os governos locais abre portas para os interesses do setor privado, especialmente os prestadores de serviços, que só agora começam a despertar para o potencial dos mercados do continente. A incapacidade gerencial na Bolívia ainda cria obstáculos, mas é evidente a consciência do governo local de que há mais possibilidades de obter no Brasil do que na Venezuela os desejados recursos para investimento no país – ainda que os venezuelanos devam garantir opor muito tempo o dinheiro miúdo usado em programas sociais de forte impacto eleitoral. O empenho de Uribe e Morales em ter Lula ao lado, na foto, indica um ativo político recente, mal estudado e ainda inexplorado pelo setor privado no Brasil.
Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

sergio.leo@valor.com.br


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