Municípios médios têm boas ofertas de negócios
30/09/2014
Se em um passado não muito distante as pessoas migravam para as metrópoles em busca de empregos e de boas oportunidades para abrir o próprio negócio, hoje são as cidades médias que chamam a atenção entre os que estão dispostos a empreender com melhor qualidade de vida. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os municípios que mais cresceram nos últimos anos foram aqueles com população entre 100 mil e 500 mil habitantes. Uma expansão de 1,12% entre 2013 e 2014, enquanto a população brasileira como um todo cresceu 0,86% e as cidades com mais de meio milhão de habitantes apenas 0,84%. Ainda segundo o IBGE, desde 2010 o país ganhou 3,2 milhões de habitantes e 56 municípios deixaram de ser pequenos, sendo que 34 deles somam uma população entre 100 mil e 200 mil habitantes.
Entre as 25 cidades que mais cresceram no último ano em população elencadas pelo IBGE, seis não são capitais – Ananindeua (PA), Niterói (RJ), Campos dos Goytacazes (RJ), Belford Roxo (RJ), Serra (ES) e Caxias do Sul (RS). Entre as capitais, têm esse perfil Porto Velho (RO), com 494.013 habitantes, Florianópolis (SC) com uma população de 461.524 habitantes, Vitória (ES) com 352.104 moradores, Boa Vista (RR) com 314.900 habitantes e Palmas (TO) com uma população de 265.409 pessoas.
O crescimento nos municípios de porte médio, entretanto, não é apenas da população. A participação da economia dessas cidades no Produto Interno Bruto (PIB) do país também chama a atenção. Juntas, respondem por 28,2% da economia do país, com uma média de crescimento econômico anual de cerca de 4,7% na última década, de acordo com o IPEA. “Trata-se de um novo Brasil urbano que não é o do espaço metropolitano e que tem um conjunto de especificidades muito peculiares”, avalia Maria Encarnação Sposito, coordenadora da Rede de Pesquisadores das Cidades Médias (ReCiMe) e professora do Departamento de Geografia da Unesp-Campus Presidente Prudente. “Essas cidades se relacionam com outras maiores e menores de forma diferente”.
De acordo com a pesquisadora, existem duas divisões bem claras entre os municípios de porte médio que mais crescem. Os primeiros integram as regiões metropolitanas, crescendo de forma natural pela `expulsão` das pessoas dos grandes centros, o chamado processo de metropolização.
Já o segundo grupo, – o mais importante para quem quer buscar novas oportunidades de negócios – cresce em decorrência de três movimentos principais: porque estão longe da metrópole e desempenham papel comercial importante, atendendo a própria população e o entorno; pela descentralização da atividade industrial, que leva as empresas a diminuir custos e o deslocamento para outras cidades é uma forma de enxugar os gastos, e pela influência direta do agronegócio, que exige mais tecnologia em suas atividades.
“Com todos esses movimentos estas cidades passam a se articular em esferas que vão além dos limites regionais”, afirma Maria Encarnação. “Os exemplos se multiplicam, com características diferenciadas de região para região.” Entre eles, ela cita a expansão do município de Petrolina, em Pernambuco, que por conta da fruticultura irrigada para exportação, atraiu empresas de desenvolvimento de novas tecnologias para plantio, controle de irrigação e de pragas, demandando a oferta de serviços e produtos de maior valor agregado no município, a fim de atender às necessidades dos novos consumidores. Assim como acontece com o agronegócio, os polos de inovação e tecnologia também vêm contribuindo para o redesenho do mapa das cidades brasileiras, na visão da geógrafa.
Muito embora o crescimento seja melhor notado nas chamadas mesorregiões – formadas por um grupo de cidades que funcionam como um polo para a população do entorno, o crescimento das cidades médias é uma realidade em todo o país. Todavia, assinalam os especialistas, os municípios não devem ser analisados como um todo e, sim, caso a caso. “É preciso pensar de forma global e fazer o negócio respeitando a especificidade de cada cidade ou região”, afirma Luis Henrique de Campos, diretor de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco. “Uma coisa é uma cidade média no sertão nordestino, outra é uma cidade média em uma área de expansão agrícola moderna, como no Centro Oeste. E outra, bem diferente, é um município de médio porte no interior de São Paulo”.
Vale observar que não há uma razão única para as cidades médias crescerem mais que os municípios com mais de 500 mil habitantes ou os menos populosos, de acordo com os especialistas. A resposta está em uma série de fatores como a busca por redução de custos, melhores condições de infraestrutura e logística, mão-de-obra mais barata e áreas para compra e locação mais fartas e em conta, como acontece no interior de São Paulo; crescimento do agronegócio nas regiões Sul e Centro-Oeste, da mineração no Pará e Minas Gerais, além da exploração de petróleo e gás no norte fluminense e na região de Santos, no litoral paulista.
Sem contar uma demanda reprimida, que leva os estudiosos a assinalar que as cidades com menos de 500 mil habitantes deverão responder por cerca de dois terços do consumo brasileiro nos próximos seis anos, atraindo empreendedores dispostos a abocanhar uma fatia desse bolo. “O interior do país tem PIB maior que o do Chile, de Portugal e da Dinamarca. A cada R$ 10 gastos pelos brasileiros, 40% são gastos no interior”, afirma Luis Barreto, presidente do Sebrae Nacional. “Ao contrário do passado, os hábitos de consumo nas cidades médias são muito parecidos com os das metrópoles, o que abre muitas oportunidades de novos negócios, sobretudo na área de serviços”.
Ao contrário do que se possa pensar, o crescimento das cidades médias não é uma exclusividade nacional. Estudo feito pelo McKinsey Global Institute ressalta que até 2015, nada menos do que 315 milhões de pessoas estarão distribuídas em cerca de 200 cidades na América Latina, com população em torno de 200 mil habitantes. Juntos, estes municípios deverão movimentar US$ 3,8 trilhões.
Valor Econômico