Minerais críticos, geopolítica e descarbonização colocam o Brasil no centro da mineração global
25/08/2026
Segunda parte do Talk Show de abertura da EXPOSIBRAM 2026 reúne governo, especialistas e empresas para discutir como transformar o potencial mineral brasileiro em investimentos, cadeias produtivas mais estruturadas e maior protagonismo do país no mercado internacional
A segunda parte do Talk Show de abertura da Expo & Congresso Brasileiro de Mineração EXPOSIBRAM 2026, denominado Mineração e Geopolítica, foi conduzida pelo moderador e secretário nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (interino) e diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral do Ministério de Minas e Energia (MME), Anderson Barreto Arruda.
No centro das discussões, a posição do Brasil no cenário da mineração global. Minerais críticos, descarbonização, mercado, investimentos, possibilidades e oportunidades de crescimento foram alguns dos temas tratados por representantes do Governo Federal, especialistas e representantes do setor privado.
Nos últimos anos, o Brasil tem enfrentado desafios e, ao mesmo tempo, identificado oportunidades no campo da atividade mineral. Representando o Governo Federal, Anderson Arruda destacou a relevância que a mineração vem recebendo por parte do poder público, além de evidenciar a atuação do Ministério de Minas e Energia na busca por condições que favoreçam o avanço e o fortalecimento do setor.
“Hoje a mineração está no Palácio do Planalto, está na fala do presidente, e isso traz para o Ministério de Minas e Energia, um grande desafio. Transformar essa tarefa desafiadora em política pública. E política pública do setor mineral, sem dúvida nenhuma, é política de longo prazo”, pontua o representante do governo brasileiro.
Ao abordar o cenário geopolítico atual, os painelistasfalaram sobre como a mineração e os recursos provenientes da atividade se tornaram palco para novas disputas geopolíticas. “Até um tempo atrás, quando pensávamos em soberania, falávamos muito de território. E hoje em dia, quando pensamos em soberania, estamos falando de tecnologia, de indústria, de energia e de defesa”, afirmou a atual presidente da Anglo American no Brasil e presidente do Conselho Diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Ana Sanches.

Sanches também ressaltou a necessidade de ampliar a previsibilidade para o mercado e criar condições mais seguras para os investimentos. Segundo ela, o Brasil reúne um expressivo potencial mineral e energético, acompanhado de uma ampla gama de oportunidades para o setor. O desafio, porém, está em transformar esse potencial em projetos concretos e capazes de chegar à realidade. “Não basta termos essa oportunidade; precisamos transformá-la em projeto, fazê-la chegar à realidade. Nesse momento de tanta disputa geopolítica, é preciso conferir maior previsibilidade aos investimentos de longo prazo para podermos garantir essa transformação”, afirma Ana Sanches.
Ao abordar as questões relacionadas a potencial e oportunidades, Anderson Arruda trouxe ao debate a possibilidade de o Brasil ampliar sua participação no atendimento à demanda global por minerais críticos, que vem crescendo impulsionada pela transição energética. Nesse contexto, o vice-presidente executivo Brasil da Ero Copper, Eduardo de Come, uma das principais produtoras de cobre em território nacional, destacou os desafios para inserir o Brasil de forma mais estratégica nas cadeias globais do mineral.
“O Brasil tem conhecimento tecnológico, instituições já estabelecidas e todas as condições para ampliar sua relevância na produção de cobre. Mas, para isso, precisamos, como a Ana Sanches pontuou, de previsibilidade e, acrescento, de coordenação. Quando falo em coordenação, refiro-me à articulação entre as diferentes esferas de governo — federal, estadual e municipal. Se conseguirmos avançar nesses dois pontos, teremos condições de ser muito mais relevantes na produção de cobre do que somos hoje. A mineração depende da atuação coordenada desses três níveis para que um projeto saia do papel e possa, de fato, entrar em funcionamento.”
A articulação entre as diferentes esferas do poder público foi apontada por Eduardo de Come como um fator essencial para ampliar a participação do Brasil no mercado global de minerais críticos e fortalecer sua posição como potência mineral.
Com a transição energética e o crescimento da demanda por minerais críticos, o setor também tem ampliado o olhar para os recursos minerais presentes nos oceanos. Nesse sentido, ganha espaço o trabalho da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) e o debate sobre a exploração de recursos minerais localizados no fundo do mar.
“Não apenas em fundos marinhos rasos, mas também naqueles que se situam nas áreas internacionais dos oceanos. Isso significa uma área correspondente a 54% dos oceanos. Essa área está aberta a todos os países, mas os recursos, sabemos, são limitados. Aqueles que chegarem primeiro terão acesso privilegiado”, afirmou o representante da ISA, Kaiser Gonçalves de Souza, ao apresentar um panorama sobre as discussões relacionadas a essa nova fronteira da mineração.
De acordo com Kaiser, o Brasil precisa se posicionar diante desse cenário para ampliar o conhecimento e a capacidade de atuação sobre os recursos minerais estratégicos existentes no Atlântico Sul.
“Existe, uma necessidade de o Brasil se posicionar no âmbito dessa discussão, a fim de ampliar seu acesso aos recursos minerais críticos, especialmente àqueles localizados no Atlântico Sul. Como geólogo, se pudesse fazer uma recomendação, seria a de que o Brasil se posicionasse nesse cenário, inicialmente, por meio da pesquisa mineral. Essa iniciativa coloca o país em uma posição política e estratégica relevante, considerando que, no futuro, haverá decisões relacionadas a essa área. É fundamental que o Brasil amplie seu conhecimento científico sobre esses recursos minerais, desenvolva tecnologias para sua pesquisa e eventual aproveitamento. E, dessa forma, esteja preparado para se posicionar estrategicamente nesse mercado.”
Durante o painel, o CEO da Mineração Usiminas, Leandro Chiardelli, abordou as possibilidades de desenvolvimento e as estratégias essenciais para o adensamento das cadeias produtivas relacionadas aos minerais críticos presentes no Brasil. “A grande oportunidade que temos, como Brasil, é conseguir gerar um ambiente em que o nosso minério possa chegar à última etapa de beneficiamento. No nosso caso, a partir da produção de minério de ferro, trata-se de chegar ao aço especial destinado a uma aplicação automotiva ou a uma aplicação específica na construção civil.”
Para Chiardelli, a consolidação dessa oportunidade passa pelo aprimoramento do ambiente regulatório e pela adoção de medidas capazes de ampliar a atratividade do país, permitindo que, além da extração, etapas como o processamento e o refino dos minerais permaneçam no território nacional. “Hoje a nossa capacidade instalada de aço supera a nossa produção, o que falta para as empresas acreditarem que isso é possível? Ou seja, voltamos novamente à agenda regulatória. A proteção da nossa indústria irá favorecer que isso aconteça, assim como barreiras tarifárias que façam com que consigamos competir de igual para igual com todos os outros produtores do mundo.”
A sustentabilidade também esteve em evidência, e, ao falar sobre a descarbonização e as possibilidades de o Brasil se consolidar como referência mundial, o CEO da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), Luciano Francisco Alves, pontou a importância de integrar mineração, indústria e geração de energia. “É fundamental que o Brasil não detenha apenas o mineral, mas desenvolva toda a cadeia produtiva e transforme essa estratégia em uma política de Estado capaz de, de fato, atrair investimentos. Isso é essencial para a segurança do país, não apenas das empresas que atuam em seu território. Ao estruturar toda a cadeia, o Brasil também passa a contar com um diferencial competitivo em relação aos demais países no mercado internacional.”
Exemplificando a situação, ele pontuou que, quando há qualquer impacto na cadeia do alumínio, o nosso produto, por ser de baixo carbono, tem preferência. Ou seja, ele tem uma demanda mais forte em comparação com um alumínio de alto conteúdo de carbono.