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Mineração assume papel de portadora de futuro para o Brasil, afirma Pablo Cesário

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19/08/2026


Diretor-presidente do IBRAM defende conhecimento geológico, licenciamento rigoroso e eficiente e maior contribuição do setor ao desenvolvimento socioeconômico, durante painel de debates com Vale, BNDES e Accenture, em Brasília.

A crescente demanda por minerais críticos e estratégicos está mudando a forma como a mineração é percebida no Brasil. De um setor reconhecido principalmente por sua essencialidade para a economia e a vida moderna, a atividade passa a ocupar posição central nas discussões sobre transição energética, industrialização, inovação e desenvolvimento socioeconômico. A avaliação foi feita pelo diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Pablo Cesário, durante o fórum “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, realizado nesta terça-feira (18), em Brasília.

“A mineração é um elemento construtor e portador de futuro. Essa é a questão central. Quando a gente fala de mineração, tem que falar mais do que da essencialidade dos minérios para a sociedade. O futuro é um binômio: mineração mais conhecimento”, afirmou Cesário. A Vale foi representada no debate pelo CEO, Gustavo Pimenta, o BNDES pelo presidente Aloizio Mercadante e a Accenture pelo presidente para Brasil e América Latina, Rodolfo Eschenbach. O encerramento do fórum foi feito pelo secretário nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral, Anderson Barreto Arruda, que representou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.

O evento, realizado pela Editora Globo com patrocínio da Vale, marcou o lançamento de uma proposta elaborada pela mineradora com consultoria da Accenture para ampliar a competitividade da mineração brasileira. O documento reúne 15 iniciativas distribuídas entre licenciamento e fundamentos da mineração, cadeia mineral integrada, ambiente de negócios e segurança institucional e valor compartilhado.

Mineração assume papel de portadora de futuro para o Brasil, afirma Pablo Cesário
Pablo Cesário, diretor-presidente do IBRAM – crédito: divulgação

Potencial mineral e espaço para crescer

A proposta parte de um contraste. O Brasil possui algumas das maiores reservas minerais do planeta e pode se beneficiar do aumento da demanda associado à transição energética, à eletrificação, à digitalização e à expansão dos data centers. Ao mesmo tempo, perdeu participação relativa na produção mineral mundial. Segundo o estudo, o país caiu da 4ª para a 7ª posição no ranking global entre 2014 e 2023.

O levantamento estima que, sob uma agenda coordenada entre poder público e iniciativa privada, a produção mineral brasileira possa passar dos atuais R$ 300 bilhões anuais para até R$ 535 bilhões em 2035. A arrecadação fiscal associada à cadeia mineral pode alcançar R$ 1,3 trilhão entre 2026 e 2035 e o número de empregos diretos, indiretos e induzidos pode crescer dos atuais 3 milhões para 5,3 milhões.

Mais valor para a sociedade

Para Pablo Cesário, os números reforçam a necessidade de ampliar a contribuição da mineração para a sociedade. Segundo ele, o setor já apresenta alta produtividade e capacidade de geração de renda, mas deve estabelecer uma ambição maior para os territórios onde atua.

– “Somos um setor de altíssima produtividade, intensivo em capital. Mas acho que isso não é suficiente. Como setor, a gente precisa se desafiar a pensar como cria um efeito líquido para a sociedade. Isso vai além de emprego, vai além de renda. Vai para uma discussão de como a gente preserva mais e como cria desenvolvimento local de verdade”, afirmou.

Cesário citou investimentos em educação e infraestrutura como exemplos de recursos capazes de produzir efeitos permanentes nas regiões mineradoras. “Se a gente criar uma escola técnica, isso será uma riqueza que ficará para sempre. Na hora que a gente investir em infraestrutura, isso também vai gerar riqueza para as pessoas”, disse.

Conhecimento para aproveitar o potencial mineral

Um dos principais obstáculos está no conhecimento ainda limitado do território brasileiro. Apenas 28% do país possui mapeamento geológico em escala adequada para a atividade mineral, segundo os dados apresentados no fórum.

Cesário comparou esse índice aos de grandes economias minerais, como Austrália e Canadá, cujos níveis de conhecimento geológico superam 90%. Para ele, o Brasil precisa ampliar tanto os investimentos quanto as formas de participação no financiamento da pesquisa geológica.

“A pergunta que nós temos agora é como criar uma institucionalidade que permita ao Brasil e ao setor privado investir também em conhecimento geológico. Temos um enorme potencial, mas, enquanto ele não for conhecido, não vai gerar prosperidade para as pessoas”, afirmou.

O CEO da Vale, Gustavo Pimenta, também apontou a mineração como instrumento de crescimento econômico e desenvolvimento social. Para ele, o país possui condições para ampliar substancialmente sua produção, mas precisa recuperar a capacidade de executar projetos de grande porte.

Segundo Pimenta, projetos de mineração podem levar cerca de 15 anos entre a exploração e a entrada em operação, o que exige condições institucionais e infraestrutura capazes de sustentar investimentos de longo prazo. Ele defendeu que o Brasil volte a desenvolver grandes empreendimentos minerais e citou o ‘S11D Eliezer Batista’, no Pará, como o último megaprojeto implantado no país. O S11D, em Canaã dos Carajás (PA), é o maior complexo minerador de minério de ferro da história da Vale e entrou em operação em 2016.

“O potencial de geração de valor da indústria é absurdo”, afirmou. Pimenta comparou a participação da mineração nas economias de outros países produtores. Segundo os dados citados por ele, o setor representa aproximadamente 14% do PIB australiano, 12% do chileno enquanto que no Brasil equivale a 4%.

Pimenta também retomou a avaliação de Pablo Cesário sobre a necessidade de superar uma narrativa baseada apenas na essencialidade da mineração. Para o executivo, a legitimidade do setor dependerá cada vez mais de sua capacidade de demonstrar resultados concretos para a sociedade.

“O que a gente tem que mostrar é não só que eu sou essencial para tudo que você precisa, para todas as megatendências, mas que o que eu faço melhora a vida das pessoas”, afirmou. Segundo ele, isso inclui desenvolvimento dos territórios, preservação ambiental, segurança, circularidade, tecnologia e formação profissional.

Licenciamento e industrialização

O licenciamento ambiental foi outro ponto de convergência entre os participantes. Pablo Cesário defendeu a manutenção do rigor das regras, acompanhada de maior capacidade técnica do Estado, padronização e prazos mais eficientes. “Temos um licenciamento muito rigoroso e tem que continuar sendo assim. O que precisa é fazer mais rápido, colocar mais recursos e garantir padronização”, afirmou.

Rodolfo Eschenbach, presidente da Accenture, retomou o argumento de Cesário ao apontar o licenciamento como uma das medidas mais urgentes para que o país consiga responder ao crescimento da demanda mundial por minerais. Os ciclos de expansão previstos para veículos elétricos, data centers e outras tecnologias já se concentram nos horizontes de 2030 e 2035, enquanto novos projetos minerais exigem vários anos para chegar à produção. “O licenciamento rigoroso e rápido é a providência mais fundamental”, afirmou.

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, acrescentou à discussão a necessidade de utilizar a disponibilidade mineral brasileira como base para uma nova etapa de industrialização. Para Mercadante, o papel econômico da mineração não deve se restringir às exportações. Minerais críticos e estratégicos podem sustentar cadeias industriais de maior valor agregado, com produção no país de componentes e tecnologias que utilizam esses insumos.

“O Estado tem que impulsionar aquilo que é portador de futuro, como são os minerais críticos e estratégicos, e pensar mais valor agregado e a relação com a indústria. Nós queremos industrializar essa cadeia de valor”, afirmou.

Mercadante disse que o BNDES está em fase de expansão do crédito e busca reconstruir uma relação estratégica com a mineração e com grandes empresas nacionais. Segundo ele, já existe demanda significativa por financiamento de projetos ligados aos minerais críticos. O presidente do banco defendeu ainda uma relação mais próxima entre Estado e iniciativa privada para ampliar a produção mineral e desenvolver etapas posteriores da cadeia. “Precisamos também produzir baterias, células das baterias. Isso é o que vai gerar valor agregado”, afirmou.

Para Pablo Cesário, a combinação entre conhecimento mineral, capacidade industrial, pesquisa, investimentos e responsabilidade socioambiental coloca o Brasil diante de uma oportunidade que ultrapassa a expansão da produção. O desafio está em fazer com que a riqueza mineral produza efeitos permanentes nos territórios, com investimentos em formação profissional, infraestrutura e preservação ambiental.

Essa visão também apareceu nas manifestações de Gustavo Pimenta e no estudo apresentado pela Vale. O fortalecimento da mineração, segundo os participantes, pode ampliar emprego, renda e arrecadação, estimular novas cadeias industriais, apoiar a transição energética e deixar benefícios duradouros nas regiões mineradoras. Para Cesário, esse é o passo necessário para consolidar a mineração como setor portador de futuro para o país.


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