Logística pode ser entrave ao boom do setor de mineração
04/11/2010
Com a previsão de investimentos maciços em mineração no Brasil entre 2010 e 2014, que chegam a US$ 62 bilhões, conforme dados atualizados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que deverão mais que dobrar a produção mineral do país, os gargalos logísticos, principalmente no que diz respeito ao escoamento da produção, são entraves para o crescimento do país e podem até mesmo inviabilizar parte dessas inversões.
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De acordo com os números do Ibram, somente a produção brasileira de minério de ferro, que em 2009 fechou em 310 milhões de toneladas, deverá ter um acréscimo de 374 milhões de toneladas até 2014, chegando a um total produzido de 684 milhões de toneladas: uma variação 2,2 vezes maior do que o total da commodity extraída no ano passado.
A Vale S/A, por exemplo, é uma das empresas que mais pretendem investir, tendo anunciado na última quinta-feira que nos próximos cinco anos irá mais que dobrar a produção de todos os minerais e metais, com acréscimo médio anual de 16,3% entre 2011 e 2015. Somente no ano que vem, a empresa vai destinar investimentos de US$ 8,522 bilhões na área de extração de minério de ferro.
Além disso, somente em Minas Gerais, há vários projetos de mineração e siderurgia “engatilhados”: como o Apolo, que será construído nos municípios de Caeté e Santa Bárbara (região Central), da própria Vale, que prevê inversões de US$ 377 milhões em 2011; a ampliação da produção de minério de ferro da Samarco Mineração S/A, nas minas do complexo de Germano, em Mariana (Central), com previsão de investimentos de US$ 2,5 bilhões que devem ser aprovados até o final do ano; além da corrida em busca dos ativos da nova fronteira minerária descoberta no Norte do Estado.
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Inadequada – No entanto, o presidente do Ibram, Paulo Camillo Vargas Penna, alerta que investimentos tão “robustos” como os previstos nos próximos anos podem se tornar inviáveis caso não haja uma mudança radical na atual matriz de transporte de cargas nacional, que, na opinião dele, é totalmente inadequada.
“Temos hoje uma matriz de transporte inadequada para o perfil econômico do país. Focamos em rodovias e o correto seria investir em ferrovias, dutovias (minerodutos, gasodutos e outros) e hidrovias para escoar a produção de toda a cadeia produtiva brasileira, não só de mineração. Precisamos mudar este quadro se o país quiser manter o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do país acima de 5,5%”, afirmou.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires, vai um pouco mais além. Para ele, o próximo presidente da República terá nas mãos a obrigação urgente de emplacar investimentos em logística.
“Caso contrário, o país não vai conseguir sustentar nem mais dois anos de crescimento. O presidente Lula gosta muito de falar em ?herança maldita?”. Mas ele mesmo está deixando essa herança no que diz respeito a infraestrutura de transportes. E o pior é que não houve entre os candidatos à sucessão presidencial nenhuma discussão aprofundada sobre o assunto”, afirmou.
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Dnit – Conforme os números divulgados pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), atualmente 65% do transporte nacional de cargas são feitos por rodovias. O restante fica dividido entre ferrovias (21%), hidrovias (10%), dutovias (3%) e por aeroportos (0,4%).
“O governo federal possui um plano nacional para integrar os modais rodoviários, ferroviários e hidroviários, mas a previsão de conclusão dos trabalhos é para 2025. Caso os investimentos realmente sejam concretizados, teremos mudanças significativas”, ressaltou Vargas.
Em entrevista concedida recentemente, o diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), Luiz Antonio Pagot, afirmou que o país possui uma “possibilidade extraordinária de desenvolvimento, podendo dobrar o PIB em 10 ou 12 anos”. No entanto, ele concordou que, para isso, é necessário que o país disponha de sistema de transporte eficiente, incrementando a “intermodalidade”.
Os investimentos necessários para essa mudança da matriz dos transportes, segundo a União, seriam da ordem de R$ 292 bilhões até 2025. Desse total, o plano prevê aportes de R$ 147,6 bilhões em ferrovias; R$ 15,8 bilhões em hidrovias; R$ 13 bilhões no setor aeroportuário; R$ 40 bilhões em portos e R$ 72 bilhões em rodovias.
De acordo com o Dnit, desde 2009, as ferrovias já começaram a contribuir para a transformação da logística do país. Em 2009, segundo o departamento, foi autorizado um aumento de 12 mil quilômetros de malha ferroviária, e um modal que conte com 29 mil quilômetros de ferrovias em operação é um dos grandes desafios do governo. Atualmente apenas 13 mil quilômetros estão operando e a expectativa é que em 2025, 32% do transporte de cargas do país seja efetuado por meio de trens.
Investimentos privados em Minas
Em Minas Gerais, uma série de investimentos privados em transportes para escoamento de cargas deve ser concretizada nos próximos anos. Dos R$ 15,3 bilhões em inversões previstas pela Vale S/A em 2011 no Brasil, R$ 3,2 milhões serão destinados à logística para dar suporte às operações de minério de ferro, carvão e potássio, sendo US$ 2,7 bilhões serão gastos em portos e ferrovias.
A MRS Logística S/A também pretende aumentar sua capacidade de transporte de produtos mineiros com destino a São Paulo e ao mercado externo por meio do Porto de Santos. A empresa está investindo cerca de R$ 230 milhões no Estado vizinho e expandirá a capacidade em 10 milhões de toneladas nos próximos dois anos, de acordo com informações da empresa.
Os aportes serão feitos na aquisição de sete cremalheiras (locomotivas utilizadas em trechos com grandes declives), utilizadas na Serra do Mar, além da separação das linhas férreas da MRS e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) de São Paulo. Conforme a empresa, os investimentos também contribuirão para a estratégia da empresa de diversificar a carga transportada e reduzir a dependência do minério de ferro.
Os aportes beneficiarão o transporte da produção em Minas Gerais, já que atualmente entre as principais cargas estão o minério de ferro produzido na região de Serra Azul com destino à planta de Cubatão (SP) da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S/A (Usiminas).
Na última quinta-feira, o diretor-presidente da Usiminas, Wilson Nélio Brumer, afirmou que o Brasil tem uma necessidade muito grande de investir em logística. “Para redução dos custos de produção e aumento de competitividade, é fundamental a adoção de formas mais adequadas de transporte de minério de ferro”, afirmou durante coletiva de divulgação de resultados da empresa.
FCA – A Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) – controlada pela Vale – também prevê investimentos para modernização do trecho ferroviário na Capital e Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Os aportes poderão ultrapassar R$ 300 milhões e visam eliminar o gargalo existente na passagem da linha férrea por Belo Horizonte e facilitar a ligação entre a FCA e a Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), também pertencente à Vale.
O projeto deverá dobrar, conforme a Ferrovia Centro-Atlântica, a capacidade de transporte no trecho. Atualmente, a estrada de ferro suporta 13 milhões de toneladas/ano.
Entre os investimentos públicos em transporte ferroviário que estão em andamento é o da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), que faz parte da primeira etapa do projeto da Ferrovia Transcontinental (EF-354). A EF-354 é planejada com 4,4 mil quilômetros de extensão, saindo de Uruaçu/GO para o leste, passando pelo Distrito Federal, Minas Gerais até o litoral fluminense.
“O grande problema é que o governo até consegue elaborar programas importantes nesse sentido, no entanto, não consegue colocar em execução esses projetos”, ressaltou o presidente do Ibram.
Estudo – Já no que diz respeito a investimentos públicos, o secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico, Sérgio Barroso, afirmou que logística é “prioridade” para Minas. Segundo ele, o governo mineiro, em parceria com o Banco Mundial (Bird), está elaborando um estudo para descobrir as melhores alternativas logísticas de escoamento do minério de ferro que será explorado no Norte do Estado, onde foi descoberta uma nova fronteira minerária.
“O novo quadrilátero ferrífero do Estado, que transformará o Norte de Minas daqui a alguns anos, será um modelo para o restante do país. Já estamos desenvolvendo projetos nesse sentindo, por meio de minerodutos e ferrovias, e vamos buscar as parcerias necessárias para viabilizá-los junto à iniciativa privada e ao governo federal”, afirmou.
Diário do Comércio