Irã anuncia mais usinas de urânio
20/04/2010
Pressionado com a ameaça de novas sanções, regime islâmico decide ampliar o programa
Enquanto as Nações Unidas ensaiam discutir mais uma rodada de sanções contra o Irã por conta de seu programa nuclear, o presidente Mahmud Ahmadinejad designou ontem os locais para instalação de novas usinas de enriquecimento de urânio ? justamente a atividade cuja suspensão foi determinada por resolução do Conselho de Segurança da ONU. ?A construção começará quando o presidente der a ordem?, anunciou o conselheiro especial do chefe de Estado, Mokhtaba Samareh Hashemi, no dia seguinte ao encerramento de uma conferência sobre desarmamento nuclear realizada em Teerã, com representantes de 60 nações.
;
Os Estados Unidos, que lideram os esforços para punir o regime islâmico, receberam com reticência o anúncio. ?Como normalmente ocorre, a retórica do Irã sobre seu programa nuclear nem sempre coincide com a realidade daquilo que são capazes de fazer?, comentou o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs. Nas últimas semanas, inclusive durante uma cúpula sobre segurança nuclear reunida em Washington, o presidente Barack Obama reuniu-se paralelamente com os colegas da China, Hu Jintao, e da Rússia, Dmitri Medvedev. Ambos resistem a apoiar o pacote de punições defendido pelos EUA, cujo alvo é a Guarda Revolucionária, corpo militar de elite da República Islâmica.
;
Ahmadinejad havia informado já em novembro último que planejava construir mais 10 instalações para expandir o programa nuclear, declaração que alimentou as suspeitas do Ocidente quanto à pretensão de Teerã de construir armas atômicas. O Irã conta atualmente com duas usinas nucleares, uma em Natanz e a outra em Qom, mas apenas a primeira já entrou em atividade. Da usina de Natanz já saíram mais de duas toneladas de urânio enriquecido a 3,5%, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Desde 9 de janeiro, essa unidade começou a enriquecer o minério a 20% ? até agora, foram produzidos 5kg do material.
;
Negociações
Os Estados Unidos seguem interessados na proposta de troca de urânio que a AIEA fez ao Irã em setembro passado, garantiu o Departamento de Estado. ?Continuamos dispostos a propô-la, se o Irã estiver interessado?, afirmou o porta-voz do departamento, Philip Crowley. Ele destacou que, nos últimos sete meses, o regime islâmico não aceitou formalmente a oferta de entregar 70% de seu urânio enriquecido a 3,5% para a Rússia, que ficaria responsável por enriquecê-lo a 20% antes de a França transformá-lo em combustível para o reator de pesquisas médicas iraniano. O país havia rejeitado os termos da proposta, exigindo que a troca fosse concretizada simultaneamente e no seu território. As potências ocidentais discordaram do pedido.
;
No último domingo, o ministro iraniano de Relações Exteriores, Manouchehr Mottaki, informou que seu governo pretende retomar o debate sobre o combustível nuclear com os membros permanetes do Conselho de Segurança (EUA, Rússia, Reino Unido, França e China). Mottaki ressaltou que só não quer negociar diretamente com os EUA, que comandam as articulações para impor novas sanções ao Irã. ?Deus criou a palavra ?compromisso? para as relações internacionais. O princípio da troca foi aceito. Podemos trabalhar sobre os detalhes?, afirmou o chanceler. ?Pensamos que em duas semanas poderemos redigir um acordo.?
;
A CAÇADA AOS REFORMISTAS
» A Justiça iraniana anunciou ontem penas de seis anos de prisão e suspensão dos direitos políticos por 10 anos para três expoentes da facção reformista do próprio regime islâmico, todos eles ligados de alguma maneira ao ex-presidente Mohammad Khatami. O ex-vice-ministro Mostafah Tajzadeh foi condenado por ?ferir os interesses nacionais e fazer propaganda contra a República Islâmica?, mesma acusação feita a Mohsen Mirdamadi, principal dirigente do partido reformista Frente de Participação, um dos principais defensores das reformas democráticas ensaiadas por Khatami. O terceiro punido é Davoud Soleimani. O próprio Khatami, recentemente, foi ?desencorajado? pelas autoridades a viajar para uma conferência sobre desarmamento nuclear no Japão.
Correio Braziliense