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Investimento estrangeiro da China agora também é privado

Notícias Gerais

10/11/2011


O jantar no Hotel Four Seasons de Nova York, que serviu em abril para apresentar o conglomerado chinês Fosun Group a Wall Street, corria igual a qualquer outro evento empresarial de alto nível – até Guo Guangchang, o presidente do conselho da empresa, trocar o terno por um pijama branco de seda para demonstrar sua maestria no tai chi.
Mark Grier, vice-presidente do conselho da Prudential Financial Inc., um dos convidados, interpretou a demonstração de dez minutos como uma mensagem de que Guo “pretende dar uma contribuição à China que vai além do impacto comercial específico de operar seu negócio”. Outra pessoa achou que foi uma maneira de Guo demonstrar sua vitalidade como um “líder jovem e vigoroso”.
Qualquer que seja a intenção, a apresentação mostra como Guo, de 44 anos, não é o típico burocrata comunista no comando de uma empresa estatal chinesa. E a Fosun também não é mais uma desajeitada gigante governamental da China.
A onda inicial de investimento chinês no exterior foi encabeçada pela aquisição de petrolíferas e mineradoras por estatais do país. Mas a feição do investimento chinês no exterior está começando a mudar, com empresas privadas como a Fosun aproveitando o lucrativo mercado doméstico para obter escala mundial. A firma de private equity Hony Capital Ltd. quer aplicar seu capital fora do país, por exemplo. E a matriz da Hainan Airlines Co. está na disputa para comprar os ativos aeroportuários da empreiteira alemã Hochtief AG.
Essas empresas “representam a nova geração de investidores chineses, ágeis e motivados”, diz David Chin, vice-diretor de banco de investimentos para a filial do UBS AG na Ásia e Oceania. A China investiu US$ 68 bilhões no exterior no ano passado. Ainda é pouco comparado aos US$ 329 bilhões dos Estados Unidos, segundo a ONU, mas é mais de cinco vezes o total de 2006.
A maioria dos ativos da Fosun está nos setores chineses de aço, mineração, farmacêutico e imobiliário. Mas a empresa comprou ano passado uma participação – agora em 10% – do grupo francês de hotelaria Club Mediterranée SA, que está interessado no crescente mercado de turismo interno na China. A Fosun também comprou este ano 10% da Folli Follie Group SA, uma varejista de luxo multinacional com sede na Grécia.
“Nosso investimento no exterior vai acelerar e se multiplicar. Com certeza não vamos parar nesses dois”, disse Guo numa entrevista ao The Wall Street Journal no edifício da sede da empresa, uma caixa de concreto na orla ribeirinha de Xangai.
Nem todas as investidas da Fosun foram bem-sucedidas. A empresa tentou em vão comprar uma fatia da grife italiana Prada SpA e liderou um consórcio que fez uma oferta fracassada pela seguradora asiática da American International Group Inc. Mas a Fosun conseguiu assinar um acordo este ano para administrar US$ 500 milhões para a Prudential Financial, a divisão de administração de ativos da gigante seguradora americana. E no ano passado ela fechou acordo para criar uma joint venture de US$ 100 milhões com a Carlyle Group LP para investir em participações na China.
A abordagem da Fosun é diferente da empregada por outras empresas chinesas, que causaram polêmica com ofertas vultuosas no exterior, como as tentativas da Huawei Technologies Co. de comprar ativos nos EUA ou o esforço da Chinalco para aumentar sua participação na mineradora anglo-australiana Rio Tinto. A Fosun, em contraste, compra fatias minoritárias de empresas estrangeiras conhecidas que estão ansiosas para se expandir na China.
“Uma empresa chinesa que tenta assumir controle de uma marca americana ou europeia enfrenta um problema de confiança”, diz Lian Xinjun, diretor-presidente da Fosun. “Quando compro uma marca americana, quero que os clientes dela achem que nada vai mudar […] É preciso demonstrar para os acionistas que você é um investidor benigno, o sócio deles na China.”
A Fosun foi fundada em 1992 por quatro formandos da Universidade Fudan, em Xangai: três especialistas em genética e um estudante de filosofia, Guo, que decidiu usar o dinheiro que tinha economizado para abrir uma empresa, em vez de ir estudar nos EUA. O capital inicial deles, de US$ 4.000, criou uma farmacêutica.
“Estudar filosofia não é um assunto particularmente especializado”, brinca Guo. “Então como eu não tinha nenhuma habilidade especial, quando dividimos as responsabilidades [ficou claro] que não podia administrar um departamento técnico, então eles me colocaram no comando de tudo.”
De farmacêutica, a empresa se expandiu para o setor imobiliário. No fim dos anos 90, a Fosun já havia se transformado numa incorporadora importante. Nos anos seguintes, comprou participações significativas em antigas estatais de siderurgia e mineração, e depois numa variedade de empresas, da editora da revista chinesa da “Forbes” à dona do complexo de turismo e shopping Yu Gardens, em Xangai.
Hoje em dia a Fosun é uma das maiores empresas privadas da China, com faturamento de US$ 7 bilhões, patrimônio de US$ 21 bilhões e dívida de US$ 8,6 bilhões. Guo, cujo patrimônio é calculado em US$ 2,8 bilhões, é uma das 20 pessoas mais ricas da China, segundo o ranking da “Forbes”.
A Fosun está longe de ser humilde. Várias vezes ela já se colocou como a Carlyle, a Berkshire Hathaway Inc. e a General Electric Co. da China.
É uma abordagem que não tem sido premiada pelos investidores. A ação da Fosun International Ltd., listada em Hong Kong, caiu fortemente da cotação da oferta inicial. Como quase 80% da empresa são controlados pelos fundadores, os investidores externos têm pouca influência.
Guo e Liang são os principais responsáveis pela expansão internacional da Fosun. Os dois outros fundadores, Wang Qunbin e Fan Wei, e três outros executivos compõem a diretoria. Os fundadores, que têm entre 41 e 44 anos, raramente ficam no mesmo lugar mas conversam pelo menos uma vez por dia.
Os empregados da Fosun colaboram semanalmente, às vezes diariamente, com os do Club Med, diz Henri Giscard d`Etaing, diretor-presidente da operadora de resorts. “Compartilhamos nossos planos de desenvolvimento para a China, pedimos o ponto de vista deles e se eles conhecem as pessoas, ou investidores e operadores que podem nos ajudar a construir um resort no local.” O primeiro hotel do Club Med na China, que já estava sendo construído antes do acordo com a Fosun, abriu em janeiro. O resort de esqui com 18 pistas se anuncia como o maior da China.
A Fosun é conhecida na China pelos contatos políticos. Guo é um dos 66 delegados de Xangai no Congresso Nacional Popular, o suposto Parlamento da China, que se reúne uma vez por ano.

Valor Econômico


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