Início promissor
24/01/2012
Mudanças para melhor na economia global implicam ajustes de rota da política econômica no país
Se a virada do ano foi sob o clima de apreensão no país e no mundo ? mais na cabeça dos economistas e no noticiário que nos relatos da economia real ?, o início de 2012 repete o de 2011, quando também a realidade constatada ao longo dos meses não confirmou o pessimismo.
Os EUA começam a ver luz no fim do túnel, a Zona do Euro parece se reconciliar com o mercado financeiro e o governo chinês dá sinal de controlar a desaceleração do crescimento econômico para esvaziar o risco de um estouro desordenado das duas grandes bolhas que ameaçam a estabilidade do maior propulsor externo da economia brasileira: a dos imóveis e a dos investimentos em infraestrutura.
É como comentou em mensagem à coluna o fundador da Embraer, Ozires Silva: ?Viu-se ao fim de 2011 que os economistas entendem menos de economia do que os meteorologistas entendem de tempo?. O que houve, segundo análise de Paul Krugman, um economista descompromissado com obviedades, é que outra vez o grande Keynes provou estar certo.
Em 1937, quando a depressão parecia encerrada, o então presidente Franklin Delano Roosevelt ignorou o conselho de Keynes, segundo o qual ?é no apogeu, não na queda, o tempo certo para a austeridade?. Roosevelt, precocemente, tentou equilibrar o orçamento fiscal.
O resultado foi a volta da economia a uma ?recessão severa?, conta Krugman, que só terminou com outra leva de gastos públicos maciços, devido à entrada dos EUA na 2º Guerra. O presidente Barack Obama se equilibra desde 2010 entre o gasto público prescrito por Keynes e a austeridade exigida pela oposição republicana, dominante na Câmara, que sequestrou suas iniciativas. Não fosse isso, e seria o horror.
Fez menos do que poderia ter feito, mas foi mais do que fizeram os governos da Zona do Euro. Obama se apoiou na gambiarra das emissões do Federal Reserve, agora discretamente seguidas pela administração do italiano Mario Draghi à frente do Banco Central Europeu ? ambos, assim, driblando as restrições fiscais ditadas pelo conservadorismo da Alemanha, no caso da Europa, e dos republicanos, nos EUA.
Distensão no mundo
Os resultados começam a surgir, com os EUA crescendo acima do que estimavam os economistas (prevê-se 1,7% em 2011 e projeta-se cerca de 2% este ano, com viés de alta) e a Europa, pela primeira vez em três anos, lidando de modo sério com os seus problemas, até da Grécia, em vias de acertar um corte substantivo de sua dívida bancária.
Tais observações pautam a agenda da economia brasileira, à luz das discussões da presidente Dilma Rousseff, no fim de semana, com os principais formuladores da política econômica, sobretudo o ministro Guido Mantega e os presidentes do Banco Central, Alexandre Tombini, e do BNDES, Luciano Coutinho. As mudanças para melhor na economia global ? à parte o eventual agravamento da crise entre o Ocidente e o Irã ?, implicam correções de rota da política econômica.
Minuetos cambiais
A deflação das commodities imaginada pelo Banco Central como peça auxiliar de sua gestão desinflacionária, permitindo-lhe seguir com a redução da Selic, torna-se menos provável se o crescimento chinês não esmorecer. Mas poderá acontecer se o dólar voltar a se apreciar no mundo. Não é bem o que deseja o governo Obama, sobretudo num ano de eleições em que conta com as exportações para reduzir a chaga do desemprego no país, mas tem sido a preferência global pelo dólar o que tem permitido aos EUA manter, sem inflação, a liquidez farta. E ao ortodoxo, ma non tropo, Mário Draghi, euro desvalorizado é o que a Europa mais precisa para também sair da crise pelas exportações.
Tentação eleitoral
Ao governo Dilma os movimentos cambiais no mundo vão exigir novas atitudes. A inflação poderá enrijecer-se, mas a Selic parruda não é opção. Ela agravaria a crise dos manufaturados, que definham pelas importações. O BC vai precisar da âncora fiscal para manter a dieta dos juros. E isso quando Dilma é tentada pelo calendário político a buscar o crescimento movido a consumo, função do crédito ? o jeito fácil de pôr a economia para andar ?, e, ao contrário de 2011, não poderá cortar investimento público para fazer superávit primário.
Estado de Minas