Especialistas que fizeram história na geotecnia são homenageados no Tailings Brazil 2026
26/05/2026
O primeiro dia do Tailings Brazil 2026, na terça-feira (26/5), foi marcado por homenagens a profissionais que construíram trajetórias de destaque na engenharia geotécnica e na segurança de estruturas de disposição de rejeitos no Brasil e no exterior.
Organizado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), o evento reconheceu as contribuições técnicas, científicas e institucionais de Joaquim Pimenta de Ávila, Paulo César Abrão e Luiz Paniago Neves para o avanço da engenharia geotécnica e o aprimoramento da gestão de segurança de estruturas de disposição de rejeitos. As homenagens destacaram a relevância da atuação dos três profissionais na consolidação de práticas mais seguras, inovadoras e alinhadas aos mais elevados padrões técnicos internacionais aplicados à mineração.
Vice-presidente honorário do ICOLD e proprietário da Pimenta de Ávila Consultoria, Joaquim Pimenta de Ávila possui ampla trajetória na engenharia de barragens e geotecnia. Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Geotecnia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), atuou em importantes empresas do setor e integra boards consultivos de grandes empreendimentos hidrelétricos no Brasil, como Belo Monte, Estreito e Foz do Chapecó.
Também homenageado, Paulo César Abrão, diretor da Geoconsultoria, acumula mais de cinco décadas de atuação na geotecnia aplicada à mineração, com destaque para projetos de disposição de rejeitos, estéreis e estabilidade de taludes em minas a céu aberto. Geólogo formado pela USP, participou de estudos, auditorias e da gestão de segurança de mais de 100 barragens no Brasil e no exterior, além de atuar na formação de profissionais como professor em cursos de graduação, especialização e mestrado.
Já Luiz Paniago Neves, diretor e superintendente de Segurança de Barragens e Pilhas de Mineração da Agência Nacional de Mineração (ANM), foi reconhecido por sua atuação no fortalecimento da fiscalização e da gestão de segurança de barragens de mineração no país. Com experiência em diferentes áreas técnicas da agência, ocupou cargos estratégicos relacionados ao tema e atualmente lidera a superintendência responsável pela segurança de estruturas de mineração na ANM.

Joaquim Pimenta de Ávila, Paulo César Abrão e Luiz Paniago Neves – crédito: divulgação
Confira entrevista ping-pong com os homenageados
Pergunta: O senhor recebeu uma homenagem hoje. Como está esse sentimento?
Joaquim Pimenta de Ávila: Eu não fui preparado para essas emoções, não, mas tenho passado por isso com certa frequência. No Comitê Brasileiro de Barragens, no último evento em Belo Horizonte, também recebi uma homenagem semelhante, que foi uma surpresa. Eu não sabia de nada e, quando cheguei à assembleia, fui chamado ao palco e recebi a homenagem. É claro que a gente fica muito feliz, é uma satisfação enorme ser reconhecido por algo que você entende que merece esse reconhecimento.
E aqui, mais uma vez, foi uma surpresa. Para mim, o IBRAM é uma instituição extremamente importante. Eu tinha um escritório no Rio de Janeiro e me mudei para Belo Horizonte por motivos familiares, já que sou mineiro daqui. Quando vim para cá, eu trabalhava muito com barragens voltadas à geração de energia e usinas hidrelétricas.
Foi aqui que me aproximei mais do setor de mineração. A primeira experiência foi na MBR, na Vila de Águas Claras, com o Lúcio e o Júlio Nery, pessoas com quem tive uma convivência muito importante e agradável. A partir daí, por meio do IBRAM, tive contato intenso com as empresas de mineração e uma experiência muito rica no setor de barragens de rejeitos.
Comecei com a barragem de Águas Claras, depois com a Samarco e outras empresas mineradoras. Ao longo de cerca de 30 anos, foi uma convivência muito produtiva para mim. O setor sempre trabalhou com tecnologias muito atualizadas e problemas complexos, o que me permitiu aplicar tudo o que aprendi na engenharia e no mestrado na Escola Politécnica da USP. Isso me motivou, inclusive, a estudar mais e publicar trabalhos.
Toda a minha realização profissional foi muito impulsionada pelas empresas de mineração e pelo IBRAM, principalmente. Por isso, essa homenagem me deixa extremamente grato. Ela representa o reconhecimento de um trabalho desenvolvido ao longo dessas três décadas no setor mineral.
Paulo César Abrão: Olha, a homenagem é uma grande oportunidade para eu agradecer. A minha relação com o Instituto Brasileiro de Mineração e com a mineração começou em 1971, ou seja, são 56 anos trabalhando no setor mineral. Com o IBRAM, a relação começou nos anos 80, quando foi formada uma Comissão de Meio Ambiente e eu fui convidado a participar.
Depois, dei cursos promovidos pelo IBRAM em 1983 e 1984, sobre barragem de rejeitos, recuperação de áreas degradadas e temas ambientais. Em 1985, no primeiro congresso do IBRAM em Brasília, participei, ajudei na organização e apresentei trabalho. Isso mostra que a minha relação com o IBRAM é muito antiga e só me engrandece. Tenho orgulho de acompanhar o Instituto desde a década de 80.
No fundo, o IBRAM também molda a mineração, porque fazemos parte do mesmo ambiente de trabalho. Fico muito honrado e muito contente.
Luiz Paniago Neves: Foi uma surpresa. Minha amiga Aline, meu amigo Júlio e o Pablo realmente me pegaram desprevenido. Quem me conhece sabe que eu não sou muito fã de homenagens, mas entendo esse reconhecimento não como algo voltado ao Luiz Paniago, e sim à Agência Nacional de Mineração (ANM) e ao trabalho realizado pelo Estado brasileiro.
É importante valorizar toda a trajetória construída desde 2010, com o início da Lei de Segurança de Barragens. Ao longo desses anos, conseguimos desenvolver um trabalho sólido, consistente e de qualidade, que hoje se tornou referência mundial. Quem ganha com isso não é apenas uma instituição, mas toda a sociedade brasileira e o meio ambiente.
Fico muito feliz por esse reconhecimento e faço questão de dividir essa homenagem com todos que estiveram ao meu lado nesta caminhada, especialmente minha família. Também agradeço a Deus por toda essa trajetória e espero continuar contribuindo, mantendo sempre a qualidade do trabalho, agora também ao lado das minhas filhas.
Pergunta: Este ano, o IBRAM comemora 50 anos. Como o senhor avalia a evolução do setor mineral nesse período?
Joaquim Pimenta de Ávila: Nos últimos 50 anos, e especialmente nos 30 anos em que participei mais diretamente, o IBRAM se consolidou como uma instituição totalmente representativa do setor mineral. É muito atuante, e as empresas que fazem parte do Instituto são, em sua maioria, líderes do setor no Brasil.
Nos últimos anos, o IBRAM tem promovido e divulgado muito o avanço tecnológico da mineração, algo que considero fundamental. Eu mesmo aprendo muito com o Instituto. Para mim, o IBRAM é quase uma casa profissional.
Paulo César Abrão: Em 1972, na primeira conferência internacional de meio ambiente na Suécia, a Vale enviou engenheiros para participar. Quando eles voltaram, houve uma reunião em Itabira e ficou claro que a mineração precisava mudar sua forma de atuação, incorporando também a proteção ambiental nos projetos.
A partir dali, começaram mudanças importantes, como nas pilhas de estéril e nos métodos de disposição. Em 1973, fizemos o primeiro projeto de pilha de estéril para a Vale. Desde então, houve uma mudança muito grande na relação entre mineração e meio ambiente, que se tornou um capítulo essencial da atividade mineral.
Luiz Paniago Neves: Desde 2010, com a criação da Lei de Segurança de Barragens, houve uma evolução muito significativa no setor. Parte dessas mudanças veio impulsionada pela legislação e, infelizmente, também pelas rupturas ocorridas ao longo dos anos. Ainda assim, a então DNPM sempre buscou atuar de forma proativa.
Antes mesmo dos desastres de Samarco, Brumadinho e Herculano, já havíamos avançado com regulamentações importantes, como as resoluções 416, em 2012, e 526, em 2013. Sempre tivemos a preocupação de construir normas que fossem efetivas e trouxessem resultados concretos para a sociedade, buscando referências internacionais e adaptando essas práticas à realidade brasileira.
Com as rupturas, houve naturalmente um fortalecimento da fiscalização e das exigências de segurança. Apesar da gravidade dos acontecimentos, acredito que conseguimos avançar muito na construção de um sistema mais seguro.
Agora, o desafio é ampliar esse mesmo nível de qualidade para as pilhas de rejeitos. Nosso objetivo é manter o padrão de excelência alcançado nas barragens, desenvolvendo resoluções, sistemas e referências técnicas para que o Brasil continue sendo referência mundial também nessa área.
Pergunta: E para os próximos 50 anos, quais são as suas expectativas para o setor mineral?
Joaquim Pimenta de Ávila: Eu acredito que o setor mineral está entrando em uma era de muita tecnologia. Ele sempre utilizou tecnologia, e as empresas ligadas ao IBRAM sempre estiveram na vanguarda dessa aplicação.
Agora, com o avanço dos minerais críticos, vejo um período de grande crescimento nos próximos anos, especialmente na próxima década. Estamos diante de várias oportunidades abertas com novas tecnologias, com o avanço dos veículos elétricos e dos motores elétricos, que dependem diretamente desses minerais.
E o IBRAM também está liderando esse movimento.
Paulo César Abrão: Eu acho que temos que dar um foco maior aos planos de fechamento de minas. Temos que projetar o fechamento desde o início, operar já pensando nele e fechar com responsabilidade, porque a mineração é um uso temporário da terra. Quando a operação termina, as comunidades precisam conviver adequadamente com aquela área.
Outro ponto importante é o reaproveitamento máximo dos bens minerais, que são uma concessão da sociedade. Isso exige que a mineração aproveite ao máximo esse recurso. Hoje já vemos o reprocessamento de rejeitos e novas alternativas sendo estudadas.
Isso está ligado à economia circular, que é o caminho que precisamos avançar cada vez mais. E eu acredito que vamos avançar nesse sentido.
Pergunta: Para encerrar, durante a homenagem o senhor destacou o papel da ANM na evolução da segurança das estruturas de rejeitos no Brasil. Gostaria que explicasse um pouco mais sobre essa atuação e a importância da agência para os avanços do setor mineral e da mineração brasileira.
Luiz Paniago Neves: O grande avanço que tivemos no setor de segurança de barragens veio da mudança tanto na estrutura da agência quanto na forma de compreender a segurança das estruturas de disposição de rejeitos.
A ANM passou a contar com uma superintendência com autonomia administrativa e financeira, o que fez toda a diferença. Com apoio do Ministério Público, no âmbito da ação civil pública envolvendo o Estado brasileiro, conseguimos fortalecer a estrutura da agência com novos servidores concursados, equipamentos, veículos, orçamento específico e melhores condições de trabalho. O resultado desse esforço é muito claro.
Existe uma estatística mundial que aponta uma ruptura de barragem com perda de vidas a cada dois anos. No Brasil, estamos caminhando para oito anos sem nenhuma perda de vida em barragens de mineração, e isso demonstra que estamos no caminho certo.
Além disso, quando buscamos benchmarks internacionais, percebemos que muitos países querem entender como funciona o sistema brasileiro, nossa legislação e os mecanismos adotados pela ANM. Isso mostra que o Brasil se tornou referência nessa área.
As mudanças implementadas na ANM foram fundamentais para alcançarmos esse patamar. Agora, o grande desafio é a transição das estruturas de disposição de rejeitos a úmido, por barragens, para estruturas em pilhas. É uma mudança importante e que exige muito cuidado. Embora eventuais ocorrências em pilhas tenham impactos mais localizados, próximos ao empreendimento, não podemos abrir mão da segurança em nenhuma hipótese.
Por isso, estamos trabalhando de forma muito dedicada, realizando benchmarks internacionais, elaborando resoluções e conduzindo análises de impacto regulatório completas, para garantir a participação da sociedade e da comunidade técnica nesse processo. O objetivo é que essa transição aconteça com total segurança, porque segurança é uma premissa da qual não abrimos mão.
Outro ponto essencial é o fortalecimento da própria ANM. Hoje, o orçamento da agência ainda está muito abaixo das necessidades. Com mais recursos, poderíamos entregar ainda mais resultados para o Estado e para a sociedade.
Conseguimos recentemente avançar com novos concursos e agora buscamos ampliar ainda mais o número de servidores. É uma medida necessária. Os profissionais que ingressaram são altamente qualificados e demonstram que, quando há pessoas capacitadas, condições de trabalho e autonomia administrativa, os resultados aparecem.
Talvez a principal mensagem seja essa: apostar na ANM é investir em segurança, em eficiência e em resultados concretos para a sociedade brasileira.