Gerdau capta R$ 4,5 bilhões
13/04/2011
Empresa diz que usará recursos para pagamento de dívida, expansão e reforço do caixa. Somando a parte secundária, oferta de ações alcançou R$ 5,8 bilhões.
A Gerdau concluiu ontem sua oferta pública de ações e levantou perto de R$ 4,5 bilhões para o seu caixa. O dinheiro não está carimbado para uma eventual compra de participação acionária na Usiminas, siderúrgica mineira de aços planos. Essa foi a resposta dada pelos executivos aos questionamentos dos investidores durante as apresentações da oferta. Há pelo menos um mês rumores no mercado dão conta do interesse da Gerdau em uma associação com a Usiminas, o que teria, inclusive, motivado as compras da ações da Usiminas pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Ao justificar sua captação, a Gerdau reforçou que os recursos vão para o pré-pagamento de empréstimos contraídos por subsidiárias no exterior (56%); investimento em melhoria e expansão da capacidade instalada (27%) e para reforçar o caixa (17%). Para muitos analistas, a empresa não tinha necessidade de chamar capital agora, uma vez que a relação entre a sua geração de caixa e a dívida está dentro do padrão da empresa nos últimos anos.
É por essa razão que, apesar das negativas, o mercado espera que a companhia tenha melhorado sua estrutura de capital para encontrar outras formas de financiar a compra de ações da Usiminas.
O tamanho da captação pesou para as cotações dos papéis. Na oferta, cada ação, ordinária (com direito a voto) ou preferencial (sem voto), foi vendida a R$ 19,25. No caso das preferenciais, as que concentram a liquidez da empresa na bolsa, esse é o menor valor desde julho de 2009. Em relação ao fechamento de segunda-feira, o preço tem desconto de 4,20%. Sobre o fechamento de ontem, o desconto é de 0,61%.
No caso das ordinárias, o preço da oferta é 23,4% superior ao fechamento de ontem. No âmbito da operação, os controladores venderam 69 milhões de ações PNs para participar da oferta prioritária e não ter a sua participação em ONs diluída. Pagaram por isso acima do valor de mercado.
Atualmente, 16% das ONs e 65,5% das PNS da empresa estão livres para negociação em bolsa.
Ao todo, conforme registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a oferta do conglomerado gaúcho soma R$ 5,821 bilhões e o total abrange a colocação de lotes extras. A parte primária da oferta, em ONs e PNs, soma R$ 4,494 bilhões e a secundária, R$ 1,328 bilhão.
A CSN, com suas compras no mercado, já possui 8,6% das ações da Usiminas e admite sua intenção de alcançar 10% para poder indicar um membro para o conselho de administração da empresa. Para a CSN, a fatia que foi colocada à venda pela Caixa dos Empregados da Usiminas (CEU) interessa e muito, uma vez que os 10% fazem parte também do acordo de acionistas.
Com cerca de R$ 12 bilhões em caixa, a empresa afirma que, enquanto não tiver definida a negociação envolvendo a Usiminas, não estará de olho em nenhuma eventual nova aquisição.
O problema para a empresa de Benjamin Steinbruch – principal acionista, presidente do conselho e da diretoria-executiva – é que a participação do CEU terá direito a voto e a vetos no bloco de controle apenas até maio de 2016. A partir dessa data, conforme novo acordo de acionistas firmado em fevereiro por Camargo Corrêa, Votorantim e Nippon Steel, as ações perdem valor estratégico. Trata-se de um risco para quem não é bem-visto como sócio pelos atuais controladores da Usiminas comprar essa participação.
O tamanho da oferta de ações da Gerdau, tradicional fabricante de aços longos, alimentou os rumores de mercado sobre a intenção de aquisição do controle da Usiminas. O caminho da operação, favorável ao grupo gaúcho, prevê a saída de acionistas como os grupos Camargo e Votorantim, além do CEU, e uma composição com a principal acionista, a Nippon, que lidera um grupo de investidores japoneses na Usiminas há décadas e juntos detêm 27,8% do capital ordinário da empresa.
Camargo Corrêa e Votorantim têm reiterado que não há planos de saída da Usiminas e que seus projetos são de longo prazo no capital da siderúrgica. Mas ninguém acredita nesse discurso. É questão de preço, da engenharia de saída e do momento certo para que decidam se desfazer de suas participações, dizem pessoas a par das conversações em andamento. A Camargo já deixou claro que produção de aço não está entre os negócios que elegeu como prioritários para o seu futuro – são concessões de energia e rodovias, cimento e construção e engenharia.
O desenho de operação que fontes do setor e do mercado financeiro veem como o mais certo de acontecer é a união da Gerdau Açominas – controlada do grupo Gerdau (93% do capital) que é bem localizada em Minas Gerais e está se especializando em aços planos – com a Usiminas. Os ganhos de sinergias são grandes e a Gerdau, segundo fontes, contratou a consultoria McKinsey para realizar um estudo medindo esses ganhos.
Uma das vantagens à vista é a enorme reserva de minério de ferro da Gerdau Açominas localizada nas redondezas de sua usina. Com teor de alta qualidade, a matéria-prima passaria a suprir a empresa e as duas usinas da Usiminas em Ipatinga (MG) e em Cubatão (MG). A CSN, que também dispõe de reservas infinitas de minério de ferro em Casa de Pedra, alega que as sinergias com ela são bem maiores do que com a Gerdau.
De posse das informações da consultoria, a Gerdau vai definir um preço para seu ativo e contratar um banco de investimento para preparar uma proposta a ser levada aos acionistas da Usiminas. A Nippon estaria bastante interessada em ter a Gerdau como sócia, pois enxerga no grupo um investidor de longo prazo e disposto a montar um grande grupo de aço competitivo para enfrentar os aumentos da duas principais matérias-primas do aço – o minério de ferro e o carvão metalúrgico. Além disso, conseguiria mais poder de competição contra o aço estrangeiro que ganha espaço no mercado brasileiro e tem corroído suas margens.
A direção da Gerdau não confirma as informações e tem evitado falar sobre o assunto.
Valor Econômico