Firmas japonesas embarcam em onda global de aquisições
31/05/2012
Com os cofres cheios de dinheiro e um empurrãozinho de uma moeda forte, empresas japonesas estão em meio à maior onda de investimento no exterior já registrada no país.
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Na terça-feira, a trading japonesa Marubeni Corp. fechou um acordo para comprar a comercializadora americana de grãos Gavilon Group LLC, numa operação cujo valor poderia chegar a US$ 5,6 bilhões (incluindo US$ 2 bilhões em dívida da Gavilon). Com isso, a aquisição seria a maior feita no exterior por uma empresa japonesa este ano – e a sétima maior no mundo todo, segundo a firma que monitora atividades de aquisições Dealogic.
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Só na semana passada, a Japan Tobacco Inc. se ofereceu para comprar a fabricante belga de tabaco Gryson NV por US$ 600 milhões, enquanto a Takeda Pharmaceutical Co. anunciou a compra da brasileira Multilab por US$ 246 milhões.
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Enquanto em febres anteriores de fusão e aquisição empresas japonesas volta e meia buscavam um ativo “troféu”, fosse qual fosse o valor, a corrida atual é movida pelo medo – pois um mercado interno que encolhe e uma economia estagnada ameaçam o lucro, dizem banqueiros e executivos.
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Além disso, muitas empresas foram obrigadas a lançar a rede fora do Japão depois que o terremoto e o tsunami de 2011 abalaram cadeias de suprimento e o abastecimento de energia.
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“As empresas japonesas sentem que não há escolha a não ser ir batalhar no exterior”, diz Yasuhiro Sato, diretor-presidente do colosso bancário Mizuho Financial Group Inc., uma grande financiadora de fusões e aquisições envolvendo suas clientes. “É questão de sobrevivência”.
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Com os mais de US$ 34 bilhões já investidos no exterior este ano, o Japão tem tudo para igualar o recorde do ano passado – US$ 84 bilhões -, que alçou o país ao terceiro lugar no ranking mundial de transações (em 2010, foi o nono), segundo a Dealogic. O volume de acordos do ano passado foi quase o triplo do pico registrado durante a efervescência dos anos 80 e começo dos 90, quando a compra de “troféus” como o Rockefeller Center e a Universal Studios sacudiram os Estados Unidos, mostram esta-tísticas da Thomson Reuters.
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A corrida às compras no exterior reforça o superávit em conta corrente do Japão, que computa o dinheiro ganho com investimentos no exterior como renda – embora possa levar até cinco anos para que a cifra apareça nos livros da empresa.
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A fartura no caixa contribuiu para a corrida. Décadas de frugalidade e de redução de dívidas na esteira do estouro da bolha de ativos nos anos 80 deixaram as japonesas com US$ 2,6 trilhões nos cofres, segundo dados do Banco Central. É mais que os US$ 2,2 trilhões que empresas americanas têm em caixa. Na hora de comprar, as japonesas também são favorecidas pelo câmbio, em torno de 80 ienes por dólar. Ou seja, o iene compra quase 10% mais dólares hoje do que comprava dois anos atrás.
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A aplicação desse dinheiro no exterior converteu as japonesas em uma fonte de capital para o mundo maior do que pesos pesados da área como Reino Unido e China – e um grande pilar de fusões e aquisições ao redor do mundo no momento em que problemas financeiros já derrubaram o volume mundial de transações em 21% este ano.
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Mas o cenário no qual ocorre essa nova leva de acordos é bem diferente do da década de 80, quando a economia japonesa estava crescendo entre 4% e 7% ao ano e as bolsas e o mercado imobiliário andavam nas alturas.
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Este ano, economistas preveem um crescimento econômico de cerca de 1%, ritmo anêmico que pode durar algum tempo. Um iene forte e custos elevados de mão de obra e eletricidade em solo japonês derrubaram a competitividade internacional de fabricantes como Sony e Honda Motor Co. Empresas japonesas estão reforçando a compra de ativos de petróleo, gás e mineração no exterior – em meio à crescente batalha por recursos, bem como ao súbito apetite por combustíveis fósseis na esteira do acidente nuclear do ano passado e da subsequente desativação de reatores no país. Em casa, uma população cada vez menor e mais velha significa menos demanda de tudo – de biscoitos a veículos.
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Esse mercado em retração está empurrando para o exterior toda uma nova classe de empresas de menor porte, tradicionalmente voltadas ao mercado interno. É o caso da cervejaria Asahi Group Holdings Ltd. e a fabricante de brinquedos Tomy Co., que no ano passado gastou US$ 640 milhões – o equivalente a um terço do faturamento anual – para comprar a fabricante americana de dos trenzinhos Thomas.
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Até empresas com uma larga história de transações internacionais estão mostrando nova agressividade no exterior.
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A gigante do comércio internacional Mitsubishi Corp. informa que está explorando a aquisição de fatias majoritárias de grandes projetos de energia ou mineração, para poder ter mais controle sobre as operações. A empresa anunciou o primeiro investimento do gênero no ano passado – a compra de 45% em uma usina de processamento de gás natural na Indonésia por US$ 2,8 bilhões.
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A Marubeni, outra trading, fez 28 negócios no exterior no total de cerca de US$ 16 bilhões do começo do ano passado para cá – tantas transações que a agência de classificação de crédito Standard & Poor`s há pouco advertiu que a compra da Gavilon causaria preocupação com o grau de endividamento da empresa.
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Segundo executivos de bancos, a nova assertividade é parte de um estilo mais maduro, de uma astúcia maior das japonesas para fechar acordos.
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Em surtos anteriores de fusões e aquisições, muitas empresas japonesas não pensaram muito sobre o que estavam comprando, dizem banqueiros, e acabaram pagando demais. Quando obrigadas a vender – por não conseguir transpor o fosso cultural ou ter lucro -, saíram com prejuízo.
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Entre 1989 e 1991 a Mitsubishi Estate Co. pagou 220 bilhões de ienes (US$ 1,4 bilhão pelo câmbio da época) por 80% do Rockefeller Center, em Nova York. Em 1996, se desfez do ativo com um prejuízo de 151 bilhões de ienes.
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“Havia tanto crédito [no mercado] na época que tinha executivo querendo comprar [qualquer coisa], tivesse ou não relação com a atividade da empresa”, diz Nobuo Sayama, diretor-gerente de fusões e aquisições da consultoria GCA Savvian Corp. Sayama trabalhou no departamento de F&As de um dos maiores bancos do Japão na década de 80 e início da de 90. “Um executivo decidia comprar sem entender de verdade o que era uma fusão ou aquisição, ou qual era o alvo do investimento”. Dessa vez, as japonesas estão pechinchando mais, dizem especialistas nesse tipo de acordo. Executivos japoneses estão decidindo mais depressa e mostram mais disposição a fazer lances hostis – como na compra da americana OSI Pharmaceuticals Inc. em 2010 pela Astellas Pharma Inc. por US$ 4 bilhões.
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Banqueiros e advogados especializados em fusões e aquisições dizem que certas japonesas ainda têm dificuldade para dizer não quando o preço é salgado e ainda penam para tocar empresas estrangeiras que adquirem.
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Mas agora, as japonesas começam a enfrentar esses problemas, dizem banqueiros, considerando pacotes de retenção e equipes de gestão antes de fechar um negócio – algo que normalmente não faziam no passado.
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“Os japoneses aprenderam muito com aquisições que deram errado no passado”, diz Yuji Nomoto, presidente da área de banco de investimento do Deutsche Bank Group em Tóquio.
Valor Econômico