Falta de água fará América Latina agir contra aquecimento
15/01/2010
Relação entre água e clima pode servir para conciliar conflitos que atrapalharam negociações em Copenhague Pergunte ao prefeito de uma cidade na Cordilheira dos Andes sobre o resultado das negociações do clima que aconteceram em dezembro em Copenhague e provavelmente você vai receber uma resposta superficial.Pergunte sobre a queda dos níveis nos reservatórios de água doce locais e você receberá uma bronca.;
A razão disso está no cerne das discordâncias que dividiram os países industrializados e em desenvolvimento e impediu um acordo vinculativo para reduzir o aquecimento global.Mas o fato também oferece um caminho para uma abordagem mais produtiva na colaboração dos países dos hemisférios norte e sul em matéria de alterações climáticas.;
Na América Latina, a água é mais fortemente ligada ao potencial de competitividade econômica e humana do que em qualquer outra parte do mundo.A região tem cerca de 31% dos recursos do planeta de água doce, sendo o lar de apenas 8% da sua população.Essa vantagem enorme de água permitiu;que a América Latina;receba 68% da sua eletricidade a partir de fontes hidrelétricas, comparados com uma média mundial de menos de 16%.;
As exportações de mercadoria da região -;na agricultura e na mineração;- dependem de quantidades extraordinárias de água.Cerca de metade das exportações de carne bovina do mundo e quase dois terços de toda a soja vêm da América Latina, onde esses itens são mais baratos de serem;produzidos, graças às chuvas tipicamente abundantes.;
Mas após severas secas dos últimos anos, a vantagem de água tornou-se uma vulnerabilidade muito grande.Em 2008, a Argentina perdeu 1,5 milhões de cabeças de gado e cerca de metade de sua safra de trigo;com a seca, enquanto a produção hidrelétrica na parte mais populosa do Chile;caiu em;34%.;
Mais recentemente, vastas regiões da Venezuela, Equador, Colômbia, Paraguai e México têm sido obrigadas a racionar água, cortar energia ou ambos.Esses esforços;aprofundam a lacuna entre as pessoas com ligações de água em casa e as milhões de pessoas pobres latino-americanas que devem recorrer aos vendedores informais de água ou a cara água engarrafada.;
Acredita-se que as últimas secas resultam de fenômenos climáticos cíclicos como o El Niño.Mas eles também são um presságio, porque os cientistas do clima concordam que as flutuações extremas de chuva estarão entre as primeiras e mais dramáticas consequências do aumento das temperaturas na América Latina.;
A;relação;entre água e clima poderia servir para conciliar os conflitos de prioridades que atrapalharam as negociações em Copenhague.Primeiramente, como;os;países industrializados;procuram as melhores maneiras de gastar os bilhões de dólares prometidos em ajuda para a adaptação às;mudanças climáticas nos países;em desenvolvimento, eles devem centrar-se em projetos;para resolver a curto prazo problemas;relacionados com o clima, como o abastecimento de água e saneamento.;
Esse pragmatismo;reconheceria a pressão sentida pelos líderes;de países onde os elementos essenciais como saúde, educação e alimentação ainda não estão disponíveis para muitos cidadãos;- e onde a meta de reduzir as emissões de dióxido de carbono continua a parecer um luxo.;Isso também convenceria as pessoas nos;países em desenvolvimento que os países ricos estãotão preocupados com a sobrevivência;a curto prazo das crianças quanto com a;saúde a longo prazo do planeta.;
Esses objetivos não precisam ser mutuamente exclusivos. A Espanha, por exemplo, tornou-se líder internacional em promover energia eólica e solar como parte de suas políticas climáticas.Mas, no ano passado, o governo espanhol também criou um fundo de doação de US$ 1,5 bilhões que está financiando projetos de fornecimento de água e saneamento nas comunidades;mais pobres da América Latina.;
Estas subvenções estão ajudando a iniciar projetos de infraestrutura crítica necessária em países como o Haiti, Guatemala e Bolívia.Elas têm alavancado também centenas de milhões de dólares em fundos adicionais do Banco Interamericano de Desenvolvimento e outros doadores.;
Governos latino-americanos, por sua vez, devem começar a tratar a água como um recurso verdadeiramente estratégico, em vez de livre e ilimitado.No curto prazo, isto significa priorizar os investimentos e as reformas dos serviços básicos, a fim de reduzir o desperdício, reduzir o déficit de cobertura e eliminar doenças transmitidas pela água.Mas também exige a disposição de fazer concessões em busca de reduções das emissões globais que, com o tempo, poderiam ser fundamentais para garantir um fornecimento confiável de água.;
A cidade de La Paz,;na;Bolívia, é um exemplo disso.;Os doadores internacionais estão ajudando a financiar a expansão das redes de água e saneamento para bairros de baixa renda, principalmente os habitados por índios Aymara. No entanto, as geleiras que abastecem a cidade com água estão derretendo rapidamente,;então o auxílio será usado para garantir novas fontes de água.;
Sendo um país com grandes florestas tropicais, a Bolívia pode ajudar a diminuir o risco de mudanças climáticas catastróficas, juntando-se a programas para reduzir as emissões de dióxido de carbono causadas por desmatamento. Mas os bolivianos estão mais propensos a apoiar essas medidas se obtiverem provas de que os países industrializados estão empenhados em ajudar a conseguir uma qualidade de vida melhor.
*Luis Alberto Moreno é presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, a principal fonte de financiamento multilateral de desenvolvimento para América Latina e Caribe.Ele escreveu;este artigo;para o Los Angeles Times.
Estado de S. Paulo