Europa e China disputam matérias-primas
23/02/2010
A indústria europeia enfrenta mais uma vez um velho desafio: a busca por matérias-primas. Estudos feitos pela Comissão Europeia aos quais o Estado teve acesso indicam que o crescimento da população mundial, a nova posição dos países emergentes, o consumo da China, a especulação e políticas de nacionalização de recursos em vários países se transformaram nos principais desafios para o mercado de commodities.
Nos próximos quatro meses, a UE vai desenhar uma estratégia para encarar esse desafio, no que já está sendo chamado de ?diplomacia da matéria-prima?. Há poucos dias, os comissários europeus receberam uma carta das maiores indústrias europeias em que o conteúdo não poderia ser mais claro: o acesso às matérias-primas na América Latina e África está cada vez mais difícil e há o temor de que jazidas e fontes de produtos essenciais acabem exclusivamente nas mãos de chineses e outras economias emergentes.
A carta, obtida pelo Estado, é um atestado da preocupação do setor industrial europeu diante da dependência do continente em relação a minérios e energia importada. Em Bruxelas, as autoridades já decidiram agir e o objetivo da ?diplomacia da matéria-prima? será o de garantir acesso a mercados na África e outros países emergentes por meio de acordos bilaterais, além de estabelecer um entendimento mínimo com a China.
Para as indústrias da alta tecnologia, aeroespacial e de telecomunicações europeias, o acesso a certos minérios pode definir a competitividade dos próximos anos. Hoje, mais da metade da energia consumida na Europa é importada e a extração de minérios no continente é deficitária. A busca por fornecedores externos é parte do cálculo da diplomacia europeia.
O problema é que os valores dessas importações explodiram nos últimos anos, gerando um déficit comercial na Europa. Segundo o Parlamento Europeu, commodities tiveram alta de 159% em seus preços entre 2002 e 2008. Metais aumentaram em 285% e grãos subiram 133%. Em 2008, só no setor de metais, os europeus importaram mais de 20 bilhões do mundo. Desde então, a crise financeira gerou uma queda nos preços de algumas commodities. Mas a recuperação internacional nos próximos anos promete recolocar o tema dos preços das matérias-primas no centro do debate.
Nacionalizações – Um dos fatores que sempre foram um obstáculo aos europeus é a disposição das jazidas de minérios e fontes de matérias-primas no planeta. A constatação é de que não apenas as grandes jazidas de minerais já usados há décadas pela indústria estão nos países em desenvolvimento, mas os novos produtos para celulares, baterias e outras tecnologias também estão nessas regiões do mundo. .
O Brasil, por exemplo, é citado como fonte de 90% de todo o nióbio, usado para gasodutos e jatos. Já a África do Sul tem 79% da produção mundial de ródio, usado para os novos catalisadores de carros. Nos EUA e no Japão, a política é a de criar estoques de alguns dos metais considerados estratégicos. Outro obstáculo enfrentado pelos europeus é a crescente nacionalização de recursos naturais pelos países em desenvolvimento. O equilíbrio de poder, portanto, sofreu uma mudança significativa. Há 30 anos, 70% das reservas mundiais de petróleo estavam em mãos de multinacionais. Hoje, 80% estão em áreas controladas por estatais.
Fator China – Outro fator criando tensões no mercado é o crescimento das economias emergentes, como China, Índia e Brasil. Segundo a entidade ambiental WWF, o novo processo de industrialização nesses países e o crescimento da população mundial exigirão dois planetas em 2030 para que as demandas de todos sejam atendidas. O Banco Mundial rejeita a tese e aposta que o crescimento populacional vai perder força. A entidade também indica que o consumo de energia será cada vez mais eficiente, gerando queda na demanda. Parte da alta nos preços resultaria de especulação financeira. Já a Comissão Europeia estima que o Banco Mundial esteja atenuando a situação chinesa e sua necessidade de matérias-primas. Segundo a Comissão Europeia, Pequim foi responsável por mais de 50% do aumento no consumo mundial de metais para a indústria entre 2002 e 2005. Entre 1990 e 2008, a produção de aço na China passou de 66 milhões para 500 milhões de toneladas. Também em busca de seus minérios, a China iniciou um verdadeiro safári pela África para encontrar matérias-primas e petróleo, sem passar por intermediários. Vários acordos foram fechados nos últimos anos, como para a exploração de cobre na Zâmbia, cobalto na República Democrática do Congo, ferro na África do Sul e platina no Zimbábue. Os europeus, que há mais de cem anos controlavam o comércio com a África, acabaram se deparando com uma nova concorrência. No setor privado, o alerta também é contra a China. ?O país vem adotando uma estratégia para garantir acesso a matérias-primas em detrimento de nossa posição?, afirmou o Business Europe, maior entidade patronal da UE, em carta à Comissão Europeia. ?Há uma corrida da China na África por matérias-primas?, afirma a entidade. Para o setor privado, será fundamental que a UE ?busque uma diplomacia ativa com os países africanos a fim de garantir acesso a recursos?. Enquanto a tensão começa a se elevar, a Europa promete apresentar, até meados do ano, uma estratégia para o novo cenário. Uma constatação é que a era dos preços baixos no setor de commodities parece ter terminado. A solução, portanto, seria uma ?diplomacia da matéria-prima? para fazer frente aos chineses nos mercados fornecedores e garantir acesso às fontes por meio de acordos.
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Agência Estado