Escassez de mão de obra muda dinâmica nas mineradoras
05/01/2011
A procura por commodities impulsionou a oferta de vagas para mineiros no mundo inteiro, levando as empresas a alertar que a escassez pode desacelerar a expansão e aumentar os custos.
A demanda por operários está forçando algumas empresas como a anglo-australiana BHP Billiton a se prepararem para transportar de avião operários de minas remotas. Outras, como a também anglo-australiana Rio Tinto, informam que a escassez acelerou os esforços para automatizar as operações. A japonesa Nittetsu Mining Co. foi forçada a diminuir o ritmo das obras de expansão da mina chilena de cobre Sol Naciente por causa da escassez de mineiros. A empresa afirma que vai acelerar novamente os planos nos próximos meses.
A Vale SA, a suíça Xstrata PLC e a britânica Anglo-American PLC, juntamente com a BHP e a Rio Tinto, estão realizando projetos de expansão no mundo inteiro para tentar atender à demanda alimentada pela China, Índia e outros países em desenvolvimento. Mas algumas mineradoras afirmam que o setor enfrenta a concorrência crescente da indústria petrolífera por operários capacitados, já que esse setor também está aumentando as despesas com exploração e desenvolvimento.
Embora a escassez se traduza em custos maiores para as mineradoras, ela beneficia os operários, que podem trocar de mina em busca de salário e condições de trabalho melhores.
Kyle Hirsch, que extrai prata em Big Creek, no Estado americano de Idaho, largou o emprego na mina Lucky Friday, da Hecla Mining Co., e começou a trabalhar em outra mina de prata próxima, que pagava US$ 350 a mais por semana.
“Perambulei minha vida toda, indo de mina para mina”, diz Hirsch, de 44 anos, que agora trabalhar como perfurador na mina Crescente Silver, em Idaho. “Agora é uma época boa para minerar. Mineração dá dinheiro.”
A United Mining Group Inc., dona de 80% da mina Crescent Silver, afirma que paga às duplas de mineiros cerca de US$ 100 para cada 30 centímetros de rocha que eles escavam. Geralmente a dupla escava três metros de rocha num turno, o que dá cerca de US$ 1.000.
Ano passado, as duplas recebiam menos, cerca de US$ 70 a US$ 80 para cada 30 centímetros de rocha escavada, segundo Greg Stewart, presidente da United Mining Group. “Temos que pagar mais agora”, diz Stewart, por causa da competição por operários.
Na Austrália, a BHP Billiton afirma que não há operários suficientes numa região isolada do Estado de Queensland, onde ela já tem uma mina de carvão mas quer abrir outra. A empresa planeja transportar de avião 500 operários de Brisbane, a 800 km de distância, para perto de Moranbah, Queensland, e trazê-los de volta em alguma semanas. “A Caval Ridge, em Queensland, é um projeto em que a BHP Billiton pretende usar aviões para transportar 100% dos operários”, diz um representante da empresa. A companhia terá de arcar com a habitação dos operários, bem como o transporte aéreo, mas não quis divulgar em quanto isso deve aumentar os custos com mão de obra.
A BHP Billiton alertou os investidores ano passado de que enfrenta “falta de pessoal capacitado em engenharia, serviços técnicos, construção e manutenção. Essa escassez pode afetar negativamente o custo e o cronograma de desenvolvimento de projetos e o custo e eficiência das operações existentes”.
A Rio Tinto afirma que não tem perfuradores ou caminhoneiros suficientes para suas gigantescas minas de ferro na região australiana de Pilbara, ou maquinistas para transportar o minério. A empresa criou um programa para automatizar todas essas funções.
“Não temos gente suficiente”, disse Sam Walsh, diretor-presidente de minério de ferro da Rio Tinto, durante uma teleconferência com analistas em novembro. “Claro que há o benefício de operar esses equipamentos automaticamente. Já obtivemos melhorias substanciais na economia de combustível dos caminhões; espero que obtenhamos o mesmo com as locomotivas à medida que progredirmos.”
A Rio Tinto não quis dar uma estimativa da alta em seus custos trabalhistas.
Analistas do setor preveem que a escassez de operários no curto prazo vai prejudicar as mineradoras em termos de custo e eficiência, mas no longo prazo os custos devem cair à medida que a automatização substitui os mineiros. Eles dizem também que as mineradoras contam com mais recursos, já que a alta de minérios como carvão, cobre, ouro, prata e zinco ajuda a compensar o gastos maiores com mão de obra.
A indústria americana de mineração, que não inclui o setor petrolífero, empregou 219.200 pessoas em novembro, uma alta dessazonalizada de 5,8% frente aos 207.200 de um ano antes, segundo o Birô de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos. Na Austrália, o governo informou em outubro que a indústria mineradora do país tinha 135.000 empregados em junho de 2009, 5,5% a mais que os 128.000 de um ano antes.
O salário médio dos mineiros varia conforme o país e a região e de acordo com a tarefa: perfuração, operação ou engenharia. A Austrália oferece o maior salário anual médio, segundo estatísticas do governo da Austrália, chegando a 100.000 dólares australianos (US$ 97.750) em 2009, o último ano para o qual há dados disponíveis. No Canadá, o salário médio foi de 70.044 dólares canadenses (US$ 70.198) em 2009, segundo o governo canadense. Os mineiros americanos receberam em média US$ 63.728 em 2009, segundo o Birô de Estatístiscas do Trabalho.
Albert Draine, 33 anos, trabalha há 14 anos em minas no Alasca, Montana e Idaho. Ele estava trabalhando numa mina de prata em Idaho enquanto estava de olho numa vaga numa mina no Alasca com salário melhor, quando soube de uma oportunidade numa mina próxima de prata, também com salário maior. Ele se candidatou e foi contratado. “Os benefícios são os mesmos, mas o salário é melhor”, diz ele.
The Wall Street Journal