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Economias asiáticas sentem impacto do terremoto no Japão

Notícias Gerais

15/03/2011


As paralisações na economia japonesa depois do terremoto e do tsunami devem repercutir pela Ásia nas próximas semanas, tornando o cenário econômico da região ainda mais imprevisível num momento em que seus países já enfrentam a alta do petróleo e dos alimentos.
A Ásia como um todo ainda deve obter um crescimento vigoroso este ano, com estimativas de expansão no PIB de 7,5% a 8%, sem contar o Japão. Mas economistas já preveem que o crescimento vai diminuir em relação ao ano passado, quando a expansão do PIB regional ultrapassou 9%, numa forte recuperação da crise financeira em que os bancos centrais tiveram até de aumentar os juros para forçar as pessoas a conter os gastos e assim combater a inflação.
O desastre natural no Japão adiciona mais incerteza a esse cenário, pelo menos no curto prazo. O terremoto de sexta-feira dizimou a infraestrutura vital de partes do Japão e pode deixar muitas fábricas sem fontes confiáveis de eletricidade por semanas, prejudicando a cadeia de suprimentos de alguns dos maiores exportadores da Ásia. Entre as fábricas fechadas ontem estavam instalações que produzem aço, papel e componentes eletrônicos.
“Os portos estão fechados e as remessas foram afetadas, especialmente na indústria de produtos elétricos ? os contêineres estão parados nos portos”, disse Fu Wing Hoong, presidente da Associação de Eletroeletrônicos da Malásia, importante produtora de componentes eletrônicos, incluindo alguns que dependem de peças feitas no Japão. “Qualquer paralisação no setor eletrônico do Japão certamente terá um impacto”, disse ele.
Economistas disseram que a boa notícia é que os fortes gastos com projetos de reconstrução ajudarão a recuperar a economia do Japão, o que pode resultar numa expansão da demanda de alguns produtos asiáticos como madeira e outras commodities. Mas a expectativa é que qualquer recuperação só ocorra mais para o fim do ano, enquanto que para os próximos dois trimestres a previsão é de desaceleração severa e talvez até de contração.
O comércio entre o Japão e os outros países asiáticos pode decair fortemente no curto prazo, disse Tim Condon, economista focado na Ásia do ING em Cingapura. Juntamente com outros problemas como a alta inflação, isso significará que “a próxima rodada de revisões das expectativas de crescimento da Ásia será para menos”, disse ele.
O Japão continua sendo uma parte crucial da economia regional, apesar de recentemente ter perdido para a China o posto de segunda maior economia do mundo depois dos Estados Unidos. O país é a maior fonte de investimento estrangeiro direto em partes da Ásia e importante gerador de receita turística, especialmente em países como a Tailândia, que recebe cerca de 1 milhão de turistas japoneses por ano. O Japão também é uma fonte importante de remessas de recursos para as Filipinas, que tem mais de 200.000 cidadãos trabalhando no Japão, inclusive nas áreas mais atingidas.
O Japão também é um dos parceiros comerciais mais importantes dos países da Ásia e Oceania, comprando boa parte do minério de ferro, carvão, gás natural e outras commodities produzidas pela Indonésia, Austrália e outros países, recebendo assim 10% das exportações da Ásia, segundo Condon, da ING.
Num relatório para clientes, o J.P. Morgan argumentou que o terremoto “se somou à série crescente de choques que estão atingindo a economia mundial no início de 2011”, como a alta do petróleo e dos alimentos e o forte inverno nos EUA e na Europa. O banco diminuiu sexta-feira pela segunda vez em duas semanas a sua previsão de crescimento dos EUA no primeiro semestre e informou que pode rebaixar ainda mais as previsões “de outros países nos próximos dias”, embora tenha enfatizado que muitas das suas preocupações podem se provar efêmeras.
Os problemas no Japão “vão atingir a economia mundial e repercutir de volta na gente”, disse o ministro das Relações Exteriores de Cingapura, George Yeo, durante uma reunião regional no fim de semana. Juntamente com as incertezas no Oriente Médio, “acho que o mundo está entrando numa nova fase e temos de ser muito alertas e não podemos ser confiantes demais e tirar conclusões levianamente”, disse ele.
A Bolsa de Tóquio teve ontem a maior queda em mais de dois anos, e caíram também os índices da Austrália e de Taiwan. Mas as bolsas da China, de Hong Kong e da Coreia do Sul subiram e as ações de algumas empresas de metais e materiais de construção até subiram, devido à esperança de que se beneficiarão dos gastos com a reconstrução.
As ações de mineradoras australianas de urânio caíram em meio a temores de que a demanda por energia nuclear vá diminuir depois do desastre de sexta-feira. A Paladin Energy Ltd., que opera uma mina na Namíbia, caiu 16%, enquanto a Energy Resources of Australia Ltd., outra mineradora de urânio, caiu 12%. Enquanto isso, na Coreia do Sul, a ação da Kepco Engineering & Construction, que projeta usinas nucleares, e a da KR Plant Service & Engineering, que as opera, caiu cerca de 14%.
Entre as outras ações da região que enfrentaram pressão de venda ontem está a da Cosco Pacific Ltd., uma operadora de terminais de contêiner na Ásia que caiu 3,3% na Bolsa de Hong Kong. Na China, autoridades e analistas disseram acreditar que a economia do país será afetada apenas marginalmente pelas consequências do sismo. Mas eles alertaram que a incerteza do mercado pode levar o governo a adiar mais medidas de aperto monetário, e qualquer crise prolongada no Japão pode gerar problemas maiores.
As economias da China e do Japão são interligadas em tudo, de automóveis à produção de eletrônicos e do turismo ao comércio de aço. A China tem se tornado nos últimos anos um centro de montagem de eletrônicos japoneses, já que as empresas japonesas começaram a buscar os menores custos de produção do país para se manterem competitivas. A China é o país que mais recebe exportações japonesas e o Japão é o terceiro maior destino das exportações da China, segundo um relatório do Bank of America Merrill Lynch.
Para a indústria de eletrônicos, “não acho que o terremoto vá prejudicar muito as operações de montagem de eletrônicos na China, porque a maior parte de nós já alcançou um certo nível de autossuficiência na obtenção de fornecedores”, disse Liu Xiaojun, gerente de vendas da Shanghai Lunsure Technology, que produz principalmente semicondutores, entre outros componentes. “Mas pode ser que enfrentemos escassez em termos de chips de silício e alguns outros componentes especiais, já que, no fim das contas, o Japão produz os melhores chips de silício.” A China também pode ser suscetível a flutuações no mercado de petróleo, especialmente porque o Japão e outros países podem impulsionar a demanda por combustíveis fósseis nos próximos meses diante das dúvidas crescentes sobre a energia nuclear, motivadas por uma série de problemas em usinas japonesas danificadas pelo tsunami.
“O Japão terá de usar mais combustíveis fósseis como petróleo e carvão, o que vai impulsionar o preço dos combustíveis fósseis no curto prazo”, disse Gao Shixian, do Centro de Pesquisa de Energia da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, a principal agência de planejamento econômico da China.
O Ministério da Economia do Conhecimento da Coreia do Sul ressaltou ontem, numa avaliação oficial, que as exportações sul-coreanas podem ser prejudicadas se piorarem as condições do Japão. O ministério citou vários componentes importantes que são importados do Japão e cujo suprimento pode ser interrompido, como o aço da indústria naval, os processadores de integração de sistemas de produtos eletrônicos e os componentes importados de televisores de tela fina.
Alguns países temem a possibilidade de os recursos investidos pelo Japão no desenvolvimento de outros países serem atrasados ou cancelados. Há muito tempo que esses recursos são uma fonte importante de capital para projetos de infraestrutura nos países mais pobres da região. O Japão está ajudando a pagar a construção de um sistema de transporte público em Jacarta, bem como usinas geotermais e termelétricas, entre outros projetos. O presidente do Senado das Filipinas, Juan Ponce Enrile, disse numa entrevista no rádio durante o fim de semana que teme atrasos no recebimento de recursos de desenvolvimento do Japão por causa do desastre. “Eles vão usar o dinheiro na reconstrução, então o compromisso com a gente vai demorar mais, atrasando portanto nossos projetos de desenvolvimento”, disse ele.
Os analistas notaram também que algumas empresas podem ser chamadas para fornecer mais produtos para o Japão, como mineradoras de carvão, produtoras de madeira, siderúrgicas e talvez até algumas empresas de gás natural. A reconstrução do Japão “pode se tornar o catalisador necessário para reiniciar a construção habitacional ciclicamente deprimida, resultando numa forte e sustentada alta na demanda por materiais de construção como toras, tábuas e painéis estruturais” para um dos maiores mercados de casas de madeira do mundo, disse Peter Ruschmeier, analista do Barclays Capital.
O turismo também pode ser prejudicado. Na Tailândia, por exemplo, pelo menos 70.000 pessoas já cancelaram reservas de viagem para o Japão por medo de vazamentos de radiação, disse Charoen Wangananont, presidente da Associação Tailandesa de Agentes de Viagens. Algumas turistas japoneses com planos de ir à Tailândia também devem cancelar, disse ele. A associação começou a pedir aos membros que ofereçam reembolso total para os turistas tailandeses que cancelarem seus planos, e vai pedir às companhias aéreas que devolvam 100% do valor pago.
William Heinecke, presidente da Minor International, uma rede hoteleira e varejista sediada em Bancoc que opera na Ásia inteira, disse que tem esperança de que o declínio nas viagens ao Japão não se torne um problema. Muitos viajantes podem transferir os planos para outros destinos turísticos na região, compensando o prejuízo das empresas de hospitalidade, disse. “Ainda esperamos que seja um ano muito bom”, disse.

The Wall Street Journal


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