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Especial Diversibram 2026 | Ana Sanches: “Diversidade não é pauta paralela, é régua de excelência” 

04/03/2026


Presidente do Conselho Diretor do IBRAM avalia a diversidade no setor mineral brasileiro.

Promover um setor mineral brasileiro mais diverso, equitativo e inclusivo é o propósito da Diversibram – Mineração sem Rótulos, iniciativa do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) que vem consolidando a agenda de diversidade, equidade e inclusão como eixo estratégico para o futuro da mineração. Em 2026, o evento será realizado no dia 14 de abril, em Belo Horizonte, em formato híbrido e com participação gratuita. Faça aqui sua inscrição.

Para aprofundar esse debate, o IBRAM conversou com Ana Sanches, CEO da Anglo American Brasil e presidente do Conselho Diretor do Instituto. Ela participará da solenidade de abertura do evento.

Ana Sanches – crédito: divulgação

Diversidade para termos um  futuro do setor mais inovador, competitivo e justo 

Na entrevista, Ana compartilha sua análise sobre o grau de maturidade do setor em diversidade, equidade e inclusão, os avanços alcançados e os desafios estruturais que ainda precisam ser superados. Ela ressalta o papel das lideranças na superação de barreiras culturais, a importância de integrar a diversidade, equidade e inclusão às decisões de negócio e a necessidade de transformar compromissos em metas concretas, com transparência e acompanhamento contínuo.

A executiva também destaca que a mineração sustentável só se consolida quando o desenvolvimento é compartilhado com as pessoas e os territórios, e que ambientes inclusivos impactam diretamente a segurança, a produtividade e a gestão de riscos. Para ela, o futuro do setor será mais inovador, competitivo e justo à medida que a diversidade deixe de ser uma pauta paralela e passe a integrar a régua de excelência da mineração brasileira.

Qual sua análise quanto à maturidade do setor mineral em relação à agenda de diversidade? O que caracteriza um setor maduro em DEI?

Ana Sanches: Um setor maduro em diversidade, equidade e inclusão reconhece que as pessoas devem estar no centro de toda estratégia. Com isso, o tema deixa de ser tratado como iniciativa isolada e passa a orientar decisões de negócio. Isso significa ter indicadores e metas claras acompanhados pela liderança, políticas consistentes e, principalmente, capacidade de rever práticas que ainda geram exclusão. O setor de mineração no Brasil evoluiu em DEI nos últimos anos, e isso deve ser reconhecido, mas ainda precisamos avançar mais. Para isso, temos que ter consistência, transparência e coragem de medir e relatar progressos e lacunas com clareza para que possamos seguir evoluindo.

A programação da Diversibram 2026 aborda temas como equidade global, tecnologia, futuro do trabalho e territórios inclusivos. O que essa agenda revela sobre os principais desafios e oportunidades do setor?

Ana Sanches: A programação mostra que diversidade, equidade e inclusão se entrelaçam a temas estratégicos que moldam o futuro do setor. A tecnologia amplia o acesso, a exemplo das operações remotas, e permite que pessoas com mobilidade reduzida operem equipamentos de mina com mais segurança e autonomia. Quando pensamos no futuro do trabalho, falamos em abrir espaço para diferentes perfis, conhecimentos e trajetórias. Ao mesmo tempo, os territórios inclusivos revelam um desafio central: não há mineração sustentável se o desenvolvimento não for compartilhado com as comunidades locais. Isso é garantir que ninguém fique para trás na transformação da mineração.

Que mudança concreta as quatro edições da Diversibram já provocaram no setor, e o que ainda falta avançar?

Ana Sanches:  Além de proporcionar mais visibilidade ao tema dentro e fora da mineração, a Diversibram tem impulsionado a troca de boas práticas, o desenvolvimento de políticas estruturadas, e o estímulo à criação de metas de diversidade nas empresas. E estamos trabalhando para avançar ainda mais na velocidade e na profundidade dessas mudanças, especialmente nos níveis de liderança, nas áreas operacionais, e na cadeia de fornecedores.

Ana Sanches durante a edição 2025 da Diversibram – crédito: divulgação

Quais são as barreiras mais persistentes para avançar em DEI na mineração no Brasil, e quais exigem decisões impopulares das lideranças?

Ana Sanches:  As barreiras mais persistentes para o avanço da diversidade, equidade e inclusão na mineração são, em grande parte, estruturais e culturais, acumuladas ao longo de décadas em um setor historicamente masculino e pouco diverso em seus quadros de liderança. 

A primeira delas é a homogeneidade nos espaços de poder. Mesmo com avanços em programas de entrada, ainda há baixa diversidade nos níveis de decisão, especialmente em cargos executivos e em funções estratégicas de operação. Outra barreira relevante são os vieses inconscientes e a naturalização de práticas excludentes, muitas vezes vistas como “técnicas”. Critérios de promoção baseados apenas em trajetórias tradicionais, disponibilidade de tempo ou experiências muito específicas acabam excluindo, na prática, mulheres, pessoas negras, profissionais locais e outros grupos sub-representados. 

Há também uma barreira importante relacionada ao ambiente operacional. A mineração ainda carrega a percepção de que a diversidade é incompatível com a produtividade ou com o trabalho em campo. Essa visão, além de equivocada, gera resistência à inclusão de novos perfis e posterga investimentos em infraestrutura, tecnologia e modelos de trabalho mais inclusivos. Superar essa barreira exige decisões claras de priorização, inclusive de capital. E é nesse ponto que a liderança faz toda a diferença entre uma agenda simplesmente declaratória e uma transformação real do setor.

Como o IBRAM pode elevar o padrão do setor em DEI sem se limitar à recomendação?

Ana Sanches:  O IBRAM pode avançar ao estimular compromissos setoriais, com indicadores comuns, metas progressivas e transparência das empresas na divulgação de resultados. Criar fóruns de acompanhamento, estimular benchmarking e reconhecer publicamente boas práticas também são caminhos eficazes. Nesse sentido, o IBRAM lidera a Agenda ESG da Mineração, que é um compromisso para tornar nosso setor cada vez mais sustentável e responsável. Essa agenda traz metas e planos de ação setoriais voltados a 12 pilares prioritários, entre eles, a diversidade, equidade e inclusão. Quando há esse tipo de integração, a adesão a práticas inclusivas deixa de ser apenas voluntária e passa a ser parte da régua de excelência do setor.

Que práticas precisam existir para que DEI vire rotina na mineração?

Ana Sanches: Para que diversidade, equidade e inclusão façam parte da rotina da mineração, é essencial que estejam integradas aos processos centrais do negócio – da contratação à operação, da segurança à gestão de desempenho. DEI se torna cultura quando passa de uma iniciativa isolada e começa a influenciar decisões diárias, metas operacionais e indicadores estratégicos. Como exemplos práticos para alcançar esse cenário ideal, podemos citar: governança com metas claras e participação das lideranças; processos de recrutamento e promoção estruturados para reduzir vieses; formação contínua de lideranças inclusivas; estrutura operacional inclusiva; além de escuta estruturada e monitoramento de clima. Não estamos falando de um programa paralelo, mas, sim, de uma forma de gerir pessoas e operações.

Ana Sanches – crédito: divulgação

Onde DEI encontra segurança, produtividade e risco operacional nas operações?

Ana Sanches:  Ambientes verdadeiramente inclusivos geram segurança psicológica, o que está diretamente ligado à segurança física e à redução de incidentes. Isso porque permitem que as pessoas trabalhem sem se preocupar com a imagem que precisam passar ou o que precisam fazer para serem aceitas naquele ambiente. Ao se sentirem confortáveis naquele espaço, as pessoas falam mais, contribuem mais e focam mais no que deve ser feito. Dessa forma, a agenda de diversidade também está relacionada ao diálogo aberto, ao reporte de riscos e ao cuidado coletivo. Além disso, equipes diversas trazem mais criatividade e eficácia em soluções de problemas, impactando positivamente a produtividade.

Qual decisão difícil a senhora já precisou tomar para sustentar DEI, e o que aprendeu?

Ana Sanches:  Não necessariamente trata-se de uma decisão difícil, mas sem dúvida é uma decisão que demanda muita consistência e coerência. Ser uma apoiadora de práticas DEI foi uma escolha minha, verdadeira e genuína, a qual renovo e revitalizo todos os dias, independente das complexidades e das resistências encontradas ao longo do caminho.

DEI é uma prática corrente nas empresas fornecedoras do setor mineral? Elas podem ser envolvidas neste esforço?

Ana Sanches: Nos últimos anos, vemos empresas fornecedoras adotando práticas de diversidade, equidade e inclusão, mas isso ainda ocorre de forma díspar. O engajamento da cadeia de fornecedores é um passo essencial, e o setor deve atuar ativamente nessa estratégia. Ao integrar DEI como critério de avaliação e relacionamento comercial, ampliamos as transformações para além das fronteiras das grandes mineradoras.

Que mensagem objetiva a senhora deixa para as lideranças que participarão da Diversibram 2026?

Ana Sanches:  Convido todas as lideranças a transformar diálogo em ação concreta. Que cada organização estabeleça metas mensuráveis de DEI, com indicadores públicos, planos de desenvolvimento de carreira inclusivos e acompanhamento periódico dos progressos. Temos boas práticas para que as pessoas se inspirem dentro e fora do nosso setor e, nesta jornada, aprender com o outro é fundamental para termos celeridade nas mudanças que são necessárias. O futuro da mineração será mais justo, inovador e competitivo se fizermos dessa agenda uma prioridade estratégica, e não apenas um discurso. O setor só avança se todas as pessoas avançam com ele.


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