Dinheiro não é tudo, protecionismo também conta
29/10/2010
Se dinheiro fosse tudo, a maior mineradora do mundo poderia esmagar Saskatchewan com as próprias mãos. A BHP Billiton Ltd. obteve faturamento de US$ 54 bilhões nos últimos 12 meses, cerca de 50% a mais que o PIB da província canadense em 2009.
Mas é Saskatchewan que está espremendo a BHP, na esperança de acabar com a maior tentativa de aquisição do momento: a oferta hostil de US$ 40 bilhões da mineradora anglo-australiana para comprar a empresa local Potash Corp. of Saskatchewan. Semana passada, o premiê da província, Brad Wall, disse que não apoia a aquisição. Aí ele começou a desferir socos, publicando anúncios nos jornais locais e emitindo comunicados à imprensa destacando frases de um ex-presidente do conselho da BHP, que alertou para o perigo do investimento estrangeiro na Austrália. Se não for impedido, destaca o comunicado, “nos tornaremos uma filial – igualzinho ao Canadá”.
O refrão de livre comércio tem se repetido no mundo inteiro nos últimos dez anos: a maioria dos países apoia o livre investimento e cooperação, e às vezes as aquisições desconfortáveis que acompanham.
A realidade é que a crise nas economias dos países ricos e seus eleitores revoltados se tornaram obstáculos para essa ideologia. A maioria dos políticos dos países ricos tem resistido ao protecionismo. Mas à medida que mais deles são derrotados nas urnas, os sobreviventes podem não conseguir resistir mais. Alguns acordos multinacionais – principalmente no Oriente – podem ser as primeiras vítimas das novas políticas.
No meio do ano, a China Huawei Technologies Co. não conseguiu fechar dois acordos para comprar telefônicas americanas porque as empresas não acreditaram que a Huawei teria credibilidade política para concretizá-los, diz uma pessoa a par da questão. Algumas das propagandas mais agressivas na campanha da atual eleição americana culparam congressistas pela perda de empregos para a China. “Matador de empregos!”, acusa uma propaganda política contra o candidato ao senado Pat Toomey, do partido Republicano, de oposição.
A cautela começa a se expandir para outros bolsões do mundo das aquisições. O órgão que analisa as ofertas de aquisição no Reino Unido revisou suas regras semana passada, dificultando a vida dos interessados em comprar empresas do país. Os interessados também serão mais fiscalizados sobre as promessas de manter empregos e fábricas, uma regra criada depois do caso notório da Kraft Foods, que fechou uma fábrica da Cadbury que tinha prometido manter.
Uma série de autoridades mundiais rejeitou semana passada outro plano da BHP para fundir suas operações de mineração de ferro com as da concorrente Rio Tinto numa joint venture de US$ 116 bilhões.
A proposta de aquisição da Potash será outro teste intrigante dos limites da intervenção política no mundo dos negócios.
O Canadá não tem os mesmos problemas econômicos que os Estados Unidos. Mas como grande parte da sua economia é ancorada nos recursos naturais, Wall disse numa entrevista ao Wall Street Journal que o país vai se tornar alvo de “aquisições fáceis” se não adotar uma linha mais rígida em transações grandes como essa.
Anualmente, o faturamento obtido com a Potash – que controla o maior suprimento de fertilizante do mundo – chega a 15% da receita tributária da província.
“É uma decisão difícil”, disse Wall. “Queremos garantir que o mundo compreenda que isso é fundamentalmente diferente de qualquer outro acordo que já analisamos. Qual a outra aquisição que já envolveu 25% das reservas mundiais de uma commodity em particular?”
“Vamos continuar defendendo nossa posição”, disse ele. Mas, quando perguntado, Wall disse que não chegaria a abrir um processo para bloquear a transação.
As conclusões de Wall servem apenas para informar o governo federal, que tem a palavra final sobre a transação.
Mais experiente depois de várias outras rejeições, a BHP continua ansiosa para fechar o acordo pela Potash. Ela se reuniu com autoridades de Saskatchewan nas últimas semanas para tentar negociar um acordo que garanta a receita tributária da província. Mas as negociações não deram em nada, disse Wall.
O argumento da BHP é relativamente simples: se rejeitar nossa oferta, rejeitará o investimento estrangeiro que ajudou a expandir os recursos naturais do país.
“O Canadá realmente é um país que precisa se abrir para o mundo, especialmente no setor de mineração”, disse Andrew Mackenzie, executivo da BHP que comanda a tentativa de comprar a Potash.
Sem capital internacional, disse ele, o Canadá “pode ter dificuldade para receber investimentos para as coisas que precisa nas areias betuminosas”, caro projeto de exploração petrolífera no país.
“Como o Canadá é um país que já tinha se mostrado resistente ao protecionismo”, disse Mackenzie, “bloquear um acordo pode transmitir um sinal que outros países vão querer imitar.”
Valor Econômico