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Dependência de commodities agora é ?benção? para América Latina, diz Bird

Notícias Gerais

14/09/2010


Grande demanda de países asiáticos, como China e Índia, por matérias-primas ajudou em boa parte das exportações de países da América Latina
SÃO PAULO – O forte crescimento registrado por países da Ásia, especialmente a China, está transformando em “uma bênção” a dependência dos países da América Latina e Caribe de exportações de matérias-primas. Esta é a principal conclusão do relatório “Recursos Naturais na América Latina e Caribe: Indo além das altas e baixas”, produzido pelo Banco Mundial (Bird).
Muitos acadêmicos brasileiros, como Maria da Conceição Tavares, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Ricardo Carneiro, já manifestaram grande preocupação com a pauta das exportações do País, muito calcada em commodities, inclusive as manufaturadas, como açúcar refinado e etanol. Contudo, o trabalho realizado pelo Bird aponta que o vigoroso peso dos recursos naturais para as vendas externas dos países da região, o que já foi apontado por alguns especialistas como “maldição”,; pode ser um fenômeno benéfico.
A conjuntura econômica internacional fez com que a mão-de-obra muito barata nos países asiáticos, entre eles a China e a Índia, os; transformasse em grandes produtores de mercadorias industrializadas e de serviços, como eletroeletrônicos, máquinas e softwares. Com as receitas obtidas com suas exportações para todo o mundo, estes países acumularam receitas bilionárias que possibilitam a modernização de suas economias, sobretudo com obras gigantescas de infraestrutura, como usinas hidrelétricas, aeroportos e rodovias. Tal boom de construção civil elevou muito suas demandas por matérias-primas, como o cobre produzido pelo Chile e o minério de ferro e as carnes embarcados pelo Brasil.
“A rapidez da recuperação na América Latina e sua resistência à crise econômica global podem ser atribuídas, em parte, ao aumento das exportações de commodities da região para as economias emergentes da Ásia”, afirmou o economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e Caribe, Augusto de la Torre. “Supondo que continue a demanda asiática por exportações como a soja argentina, o minério de ferro do Brasil, o cobre do Chile, os minérios do Peru e outras matérias-primas latino-americanas, a região estará em posição sólida para lucrar com seus recursos naturais”, comentou.
De acordo com o estudo, a região apresentou um salto significativo das exportações de commodities para mercados emergentes. A participação da China nas vendas externas destes produtos pela região passou de 0,8% de 1990 para 10% em 2008, último ano com dados disponíveis. No mesmo período, ocorreu uma diminuição da parcela destes recursos naturais destinados aos EUA de 44% para 37%.
O trabalho do Banco Mundial ressalta que as receitas volumosas obtidas pelos países da América Latina e Caribe com as exportações de matérias-primas, se forem bem administradas, podem se tornar uma fonte notável para auxiliá-los no desenvolvimento econômico e social. O estudo, produzido pelos economistas Augusto de la Torre, Emily Sinnott e John Nash, ressalta que é fundamental que os países da região considerem a adoção de políticas anticíclicas a fim de aproveitar da forma mais eficiente a “bonança” de recursos obtidos com as vendas de commodities.
O trabalho menciona, por exemplo, a experiência de fundos fiscais de estabilização, como o empregado pelo Chile, com o qual é gerada uma poupança expressiva quando as exportações de matérias-primas estão indo muito bem. Tais recursos são utilizados em vários empreendimentos de longo prazo, inclusive em obras de infraestrutura que foram adotadas para ajudar a reconstruir várias áreas da capital, Santiago, destruídas pelo terremoto ocorrido neste ano.
“Haveria um sinal claro de que os riscos relacionados com a abundância de matérias-primas estão sendo evitados se os países exportadores conseguirem poupar parte substancial das receitas provenientes de sua comercialização”, explicou Augusto de la Torre.
Segundo o trabalho, a evolução dos preços de commodities é uma notícia favorável aos países da região. Em 2008, as exportações de recursos naturais pelas sete maiores economias da América Latina e do Caribe alcançaram perto de US$ 400 bilhões. Tal montante representa 52% de todas as vendas externas desse grupo de nações. O Bird destaca que na Argentina, Paraguai, Uruguai e região sul do Brasil as exportações de produtos agrícolas representam, em média, metade de todas as suas vendas internacionais.
Segundo o Bird, é fundamental que estes países exportadores de commodities assegurem a transparência dos fundos públicos que podem ser criados com o excedente de receitas obtido com aquelas mercadorias. O Banco Mundial defende que qualquer autorização para gastos extraorçamentários relativos a estas poupanças devem ser sujeitas à aprovação do Congresso.

O Estado de São Paulo


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