China pode ser referência na área de encadeamento produtivo
04/08/2010
A China pode ser uma referência para o Brasil em termos de políticas públicas e privadas voltadas à realização de projetos e ações de encadeamento produtivo entre grandes, micro, pequenas e médias empresas, segundo o embaixador Rubens Ricupero, ex-secretário geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Ele está mediando os debates do workshop sobre Encadeamento Produtivo, nesta terça-feira (3), na sede do Sebrae em Brasília.
?Esse workshop é um marco histórico?, disse ele na abertura do evento.
?Há mais de 25 anos, a China iniciou processo de grande êxito ao se abrir para o capital externo. Porém, o trajeto que os investimentos estrangeiros iriam percorrer no país foi definido de forma bastante clara?, afirmou Ricupero. Por exemplo, a formação de ?joint ventures? com parceiros chineses era obrigatória em todos os setores produtivos, somando-se a transferência de tecnologia e conhecimento, que estavam citados nas cláusulas dos contratos, monitorados pelo governo, informou o embaixador.
A evolução desse posicionamento do governo chinês acabou gerando o Caso Siemens, segundo ele. O parceiro chinês da Siemens começou a competir com a grande empresa alemã, deixando de renovar o contrato de parceria. ?Os chineses souberam definir e praticar essa política. Hoje já não existem joint-ventures em algumas áreas e setores da economia chinesa.? Hoje elas não são mais necessárias. ?A pressão do governo continua forte apenas nos setores ainda em nível de aprendizagem?, complementou.
O embaixador revelou que sempre se preocupou com a oferta e qualidade dos produtos e serviços das empresas brasileiras, com vistas à sua participação no mercado internacional, especialmente no período em que ocupou o cargo de secretário geral da UNCTAD, de 1995 a 2004.
Houve época, no Brasil, em que o sonho dos políticos, empresários, acadêmicos e da sociedade era nacionalizar o processo produtivo por completo. ?Sonhávamos em chegar a 100% na indústria automobolística, por exemplo. Hoje ninguém sustenta esse posicionamento?, citou Ricupero. ?O tema encadeamento produtivo é indissoluvelmente ligado ao tema globalização. O sistema produtivo deixou de ocorrer na escala nacional?, afirmou o embaixador na abertura do workshop.
?Compete ao Brasil fazer algo semelhante”, disse ele, referindo-se à estratégia chinesa.”Não vamos copiar os chineses, mas cabe a nós direcionar esses investimentos estrangeiros de modo que não nos prejudiquem?, ressaltou o embaixador. ?Não se trata de sugerir políticas intervencionistas, mas que harmonizem o capital que chega ao Brasil com o nosso desenvolvimento?, enfatizou Ricupero.
Ele contou que há três meses, durante viagem à China, conheceu em Xangai a maior empresa produtora do mundo de tacos para piso de casas, apartamentos e escritórios. Ficou sabendo que tal empresa possuía uma floresta no Mato Grosso e exportava para a China as madeiras cortadas. ?É isso que se deve evitar. Não queremos economia de enclave?, salientou.
“Desde que os investimentos estrangeiros conduzam a participação crescente das pessoas e empresas nas cadeias de alto valor agregado, eles são bem-vindos, Os governos e o Estado não podem se omitir do papel de direcionar e garantir que os investimentos sejam benéficos para o País.”
No ano passado, a China passou a ser o maior parceiro individual comercial do Brasil, em lugar dos Estados Unidos. Ricupero chamou a atenção para o fato do relacionamento comercial com a potência asiática estar crescendo ano a ano. Os Estados Unidos absorviam, em média, entre 22 a 23% das exportações brasileiras. Teve períodos em que chegou a 36%. Em 2009, esse índice caiu para menos de 11%, segundo o embaixador.
?A demanda chinesa é que tem permitido com que as commodities sejam exportados por preços altos. A Vale conseguiu mais um aumento no preço do minério comprado pela China, recentemente?, argumentou Ricupero. A grande preocupação, no entanto, é que o mercado americano sempre absorveu grande quantidade de manufaturas brasileiras, mais do que a Europa. ?Até hoje, porém, o grande mercado para os bens e serviços brasileiros são os Estados Unidos e a América Latina. A China absorve praticamente commodities de baixa elaboração (27% em manufaturas), como minério, soja, entre outros?, afirmou.
Os chineses representam ainda 23% das exportações chilenas. A estratégia chinesa passa pela América Latina visando a compra de commodities, mas em relação a serviços, os países da Ásia são os parceiros preferenciais. ?O tempo vai dizer?, respondeu Ricupero, ao ser perguntado sobre sua opinião a respeito da parceria comercial com a China.
DCI