Cenário provável é de alta de royalties da mineração a partir de 2012
23/09/2010
RIO – O analista sênior de mineração do Santander Research, Felipe Reis, acredita que o cenário mais provável para o setor no Brasil, em relação aos royalties cobrados aos produtores, é de um aumento na alíquota a partir de 2012, com alta para uma alíquota entre 5% e 10%.
De acordo com o economista, o avanço dos royalties na mineração é uma realidade mundial, com alta concretizada na Austrália e discussões em andamento no Chile.
Reis acredita que a possível elevação do valor cobrado – que hoje se situa em cerca de 2% da receita para o minério de ferro, descontados custos como o transporte e os impostos – é o maior risco de curto prazo para o setor no Brasil.
“Existe uma realidade global hoje de aumento de royalties. E no Brasil é uma demanda no setor público o aumento dos royalties”, frisou Reis, que participou do 14º Americas School of Mines, no Rio de Janeiro.
Para o analista, um cenário provável é um aumento das alíquotas a partir de 2012, considerando como uma possibilidade o escalonamento dos royalties, com valores mais baixos para a produção vendida para fabricação de aço no Brasil.
Na Austrália, a mudança das alíquotas significou um aumento para algo em torno dos 30%, de acordo com Reis, o que leva investidores estrangeiros a esperar uma alta expressiva no Brasil, para cerca de 15% ou 20%.
“Nunca ouvi ninguém do governo, nenhum especialista do setor, nenhuma empresa falar de um aumento dessa magnitude. Mas o estrangeiro, influenciado pelo exemplo australiano, espera algo alto”, ponderou Reis. “Mas hoje o cenário mais provável é de aumento de royalties e de que esses royalties passem para um patamar entre 5% e 10%”, acrescentou.
Em sua apresentação no seminário, Reis apresentou estimativas do impacto dos aumentos de royalties do minério de ferro sobre os resultados da Vale.
Segundo os cálculos do analista, uma cobrança mantida em 2% significaria um pagamento de US$ 750 milhões em 2012, equivalentes a 2,31% do lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (lajida) anual. Um aumento para 5% significaria US$ 1,88 bilhão, ou 5,76% do lajida. Com 7,5% os valores subiriam para US$ 2,82 bilhões, ou 8,64% do lajida; saltando para US$ 3,76 bilhões, ou 11,53% do lajida, com uma alta para 10%.
“O impacto vai ser menor do que estou colocando porque não tenho exatamente a conta. As estimativas são conservadoras”, explicou Reis, que acresentou ainda que cada ponto percentual de aumento nos royalties reduz em 1,3% o preço alvo estimado por ele para o American Depositary Receipt (ADR) preferencial da Vale, que é de US$ 37, ou R$ 74.
Reis também chamou a atenção para as limitações no crescimento orgânico de curto prazo na produção de minério de ferro em meio à crescente demanda global. Segundo estimativas do analista, os preços do mercado spot, que hoje oscilam ao redor de US$ 140, deverão recuar à medida que novos projetos entrarem em operação, atingindo US$ 50 em 2020. Para Reis, o recuo será lento até 2015, acelerando a partir de então.
Segundo ele, as três principais produtoras de minério de ferro – Vale, Rio Tinto e BHP Billiton – deverão liderar o crescimento da capacidade de produção até 2015. A Vale deverá saltar das 300 milhões de toneladas do ano passado para 450 milhões de toneladas em 2015, enquanto a Rio Tinto avançará de 220 milhões de toneladas para 309 milhões de toneladas em igual período. Já a BHP passará de 129 milhões de toneladas para 305 milhões de toneladas.
Com a alta da produção, a expectativa de Reis é que produtores de custo mais elevado deixem o mercado, beneficiando empresas com projetos de “alta classe”. Para ele, “vai sobreviver no longo prazo quem tiver ativos de qualidade e acesso a logística decente. Não há uma boa mina sem logística”, disse Reis.
Valor Online