Brasil precisa destravar seu potencial mineral para recuperar espaço global, afirma Gustavo Pimenta
25/08/2026
CEO da Vale apresentou na EXPOSIBRAM 2026 estudo com quatro agendas prioritárias e 15 iniciativas voltadas a pesquisa mineral, licenciamento, integração das cadeias produtivas e segurança institucional.
O Brasil reúne reservas minerais e capacidade produtiva e, em um mundo mais fragmentado politicamente, pode se apresentar como fornecedor para diferentes mercados consumidores e liderar a oferta de minerais críticos. Para ocupar essa posição, precisa acelerar projetos, ampliar o conhecimento geológico e criar condições para novos investimentos. A avaliação foi apresentada pelo CEO da Vale, Gustavo Pimenta, durante palestra magna nesta terça-feira (25), segundo dia da EXPOSIBRAM 2026.
Pimenta apresentou estudo encomendado pela Vale à Accenture, resultado de um ano de análise comparativa de mercados e da realidade brasileira. A análise resultou em quatro agendas prioritárias e 15 iniciativas estratégicas para destravar o potencial mineral brasileiro, relacionadas ao desenvolvimento de projetos e licenciamento, integração das cadeias produtivas, segurança institucional e geração de valor compartilhado nos territórios.

Demanda por minerais amplia oportunidade para o Brasil
Segundo Gustavo Pimenta, tendências como eletrificação, inteligência artificial, digitalização e mobilidade elétrica devem elevar a procura global por minerais nas próximas décadas. Ele citou estudos da Agência Internacional de Energia que apontam a necessidade de forte expansão da oferta mineral para atender às transformações tecnológicas e energéticas. “O nosso problema é de oferta, de capacidade de colocar esses minerais no mercado para atender à demanda crescente”, afirmou.
O executivo destacou a posição brasileira em um cenário internacional de maior disputa por cadeias de suprimento. Para ele, a diversidade mineral e as relações comerciais mantidas pelo país com diferentes mercados criam condições para que o Brasil amplie sua presença, especialmente na produção de minerais críticos. “Sempre digo que temos a tabela periódica em nosso território”, disse. Segundo Pimenta, a participação brasileira na produção mundial de diversas substâncias ainda é inferior ao peso das reservas existentes no país.
A mineração também possui participação relevante na economia brasileira. Pimenta citou cerca de 230 mil empregos diretos e aproximadamente 2,9 milhões de postos de trabalho ao considerar toda a cadeia. Ele afirmou ainda que o setor responde por parcela expressiva do saldo comercial brasileiro. Segundo dados do IBRAM, o saldo da balança comercial mineral alcançou US$ 37,6 bilhões em 2025, montante equivalente a 55% do saldo total da balança comercial brasileira, que fechou em US$ 68,3 bilhões.
Brasil perdeu participação na produção mineral mundial
Um dos pontos centrais da apresentação foi a diferença entre o potencial mineral brasileiro e a evolução da produção nas últimas décadas. Pimenta comparou o desempenho do Brasil com o de outros grandes produtores. No minério de ferro, segundo os dados apresentados, Brasil e Austrália produziam volumes próximos em 2010. Desde então, a produção australiana alcançou cerca de 1 bilhão de toneladas, enquanto a brasileira permaneceu próxima de 400 milhões de toneladas. O executivo citou movimentos semelhantes no níquel, com a expansão da Indonésia, e no cobre, com o crescimento da República Democrática do Congo.
Pimenta afirmou que o Brasil ocupava a quarta posição mundial em valor da produção mineral em 2014 e caiu para a sétima em 2023.
O conhecimento geológico aparece entre os fatores que limitam essa expansão. Segundo o CEO da Vale, cerca de 28% do território brasileiro está mapeado em escala adequada, enquanto países como Austrália e Chile possuem conhecimento geológico de mais de 70% de seus territórios.
Ele defendeu maior volume de recursos para pesquisa mineral e conhecimento do subsolo. Na Vale, segundo Pimenta, os investimentos em exploração e conhecimento geológico cresceram aproximadamente cinco vezes nos últimos dois anos.
Estudo propõe medidas para acelerar projetos minerais
A primeira agenda apresentada trata do desenvolvimento dos projetos e do licenciamento. Segundo Pimenta, um empreendimento mineral pode levar cerca de 15 anos entre o início da exploração e a entrada em operação, prazo incompatível com a velocidade de crescimento da demanda mundial. Entre as medidas citadas estão reforço das equipes dos órgãos ambientais, investimentos em tecnologia e capacitação, ampliação da pesquisa geológica e definição de regras para cavidades naturais subterrâneas.
O CEO da Vale também propôs atenção específica aos empreendimentos de maior porte. Segundo ele, o último grande projeto licenciado no Brasil foi o S11D, em Serra Sul, empreendimento com capacidade de 80 milhões de toneladas que entrou em operação em 2016. A sugestão apresentada no estudo é selecionar dez projetos capazes de gerar investimentos, empregos e renda e estruturar processos dedicados para sua análise.
Integração da cadeia depende de infraestrutura, energia e gás competitivo
A segunda agenda trata da integração das cadeias minerais e industriais. Pimenta defendeu condições para ampliar beneficiamento e processamento no Brasil e citou infraestrutura, tecnologia, energia e gás natural competitivo entre os requisitos para novos projetos.
Ao abordar a produção de ferro briquetado a quente (HBI, na sigla em inglês), insumo utilizado na fabricação de aço com menor intensidade de carbono, o executivo afirmou que o preço do gás brasileiro representa uma restrição econômica. Segundo ele, o gás custa cerca de US$ 14 por milhão de unidades térmicas britânicas (BTU) no país e precisaria alcançar patamares próximos de US$ 5 ou US$ 6 para viabilizar determinados investimentos.
Pimenta também ressaltou a necessidade de expandir a própria produção mineral para sustentar etapas industriais posteriores. “Sem minério, não há refino”, afirmou.
Para o executivo, a posição diplomática e comercial do Brasil permite construir parcerias internacionais para tecnologia, processamento e beneficiamento. A crescente preocupação dos países com segurança de suprimento também pode favorecer acordos de longo prazo para minerais críticos.
Segurança institucional influencia decisões de investimento
A terceira agenda está concentrada na estabilidade fiscal e regulatória. Pimenta destacou que projetos minerais exigem investimentos elevados, com horizontes de várias décadas, e competem internacionalmente pela alocação de capital. “Quando colocamos R$ 1 para trabalhar em uma mina, esse investimento permanecerá lá pelos próximos 40 anos”, afirmou.
Segundo ele, países com recursos minerais disputam ativamente novos projetos. A previsibilidade das regras durante todo o ciclo dos empreendimentos, portanto, influencia as decisões das empresas sobre onde investir.
Desenvolvimento dos territórios integra agenda da mineração
A quarta agenda apresentada por Gustavo Pimenta trata do valor compartilhado e da relação da mineração com os territórios. Segundo ele, o pagamento de impostos pelas empresas não encerra sua responsabilidade com o desenvolvimento das regiões onde atuam. O CEO da Vale defendeu a participação das mineradoras nas discussões sobre alocação de capital e diversificação econômica, com foco na prosperidade dos municípios no médio e no longo prazo, sem substituir as funções do Estado. Na mesma agenda, afirmou que os recursos da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) e os demais tributos pagos pela indústria precisam ter melhor destinação.
Pimenta também apresentou a experiência da Vale na Floresta Nacional de Carajás, no Pará, onde a empresa atua em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Segundo ele, a operação utiliza recursos e tecnologia para proteger a área contra invasões e atividades ilegais.
“A mineração legal mantém a floresta de pé”, afirmou.
Expansão da mineração pode elevar arrecadação e emprego
O estudo apresentado pela Vale estimou os possíveis efeitos econômicos de uma expansão da produção brasileira até uma participação internacional compatível com a parcela que o país possui das reservas minerais.
Segundo Pimenta, o setor contribuiu com aproximadamente R$ 74 bilhões em arrecadação para os cofres estaduais, municipais e federais nos últimos dez anos. A modelagem feita com a Accenture indica que esse valor poderia chegar a R$ 130 bilhões nos próximos dez anos caso o Brasil ampliasse sua participação na produção mundial até um nível equivalente ao peso das reservas brasileiras no total mundial.
O estudo também estima que os aproximadamente 2,9 milhões de empregos relacionados atualmente à cadeia mineral poderiam alcançar 5 milhões nos próximos anos. Para Gustavo Pimenta, o avanço depende da capacidade de executar as medidas propostas enquanto outros países também ampliam investimentos em minerais ligados à transição energética, à tecnologia e às novas cadeias industriais.
“Existe uma enorme oportunidade para o Brasil assumir esse protagonismo. Teremos, porém, de agir com urgência e diligência”, afirmou.
Patrocínios e apoios da EXPOSIBRAM 2026
A EXPOSIBRAM 2026 conta com o patrocínio de importantes empresas e instituições dos setores mineral, industrial e de tecnologia. Na categoria Master, o evento tem como patrocinadora a BHP e a Vale. Na categoria Diamante, participam Aeolus e Ero Copper. Entre os patrocinadores Platina estão Anglo American Brasil, BVP, CMOC Brasil Mineração, Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (CODEMGE), Compañía Electro Metalúrgica S.A., Huawei do Brasil, Loctite, Lundin Mining, Norsk Hydro e Taboca. Na categoria Ouro, figuram AngloGold Ashanti, Kinross Brasil e Nexa Resources. Entre os patrocinadores Prata, estão ArcelorMittal Brasil, Geosol e Mineração Usiminas. Na categoria Bronze, apoiam o evento Accenture, Alcoa, Appian Capital Brazil (Atlantic Nickel), Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), Del Rey Minerals, Dinâmica, DXC Technology, Hatch, Hexagon Mining, Mosaic Fertilizantes, Pirobras, Samarco e St George Brasil.
A EXPOSIBRAM 2026 também conta com amplo apoio institucional de entidades como Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), Associação Brasileira de Águas Subterrâneas (ABAS), ABIAPE, Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (ABIFER), ABIMAQ, ABIMEX, ABM (Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração), Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (ABRACE Energia), Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (ABRATE), Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral (ABREMI), Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas), Agência para o Desenvolvimento da Indústria Mineral Brasileira (ADIMB), Amcham Brasil, Agência Nacional de Mineração (ANM), APEMI, CAEMG, Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), Confederação Nacional da Indústria (CNI), Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO), Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), International Geosynthetic Society (IGS), Movimento pela Inovação na Mineração e Desenvolvimento (MINDE), Mining Hub Brasil (Mining Hub), OAB SP (Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo), Organismo Latino-Americano de Mineração (OLAMI), RMMG, Sociedade Brasileira de Geofísica (SBGf), Serviço Geológico do Brasil (SGB), SGB Núcleo Bahia-Sergipe, Sindicato das Indústrias Minerárias do Estado do Pará (SIMINERAL), Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Estado de Minas Gerais (SINAEES-MG), Sindicato da Indústria Mineral do Estado de Minas Gerais (SINDIEXTRA), Sindicato da Indústria de Rochas Ornamentais, Cal e Calcários do Estado do Espírito Santo (SINDIROCHAS) e Women in Mining Brasil (WIM Brasil).
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