Brasil não fica mais só com os produtos de pior qualidade
06/02/2012
Estabilidade, renda e emprego tornaram o consumidor mais exigente
Se antigamente os brasileiros se sentiam consumidores de segunda categoria, já que os melhores produtos do país eram exportados, hoje a situação é diferente. A estabilidade da economia, o aumento do emprego e da renda nos últimos anos tornaram os consumidores do Brasil mais exigentes e bem-vindos em vários países, como os Estados Unidos. Hoje, as empresas nacionais e multinacionais não medem esforços para agradar os consumidores “verde e amarelos”. ;
O diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Nathan Herszkowicz, lembra que, há cerca de 12 anos, os melhores grãos de café eram vendidos para o exterior. “Isto, porém, já é uma página virada. Hoje, aqui se toma café de qualidade como na Europa e nos Estados Unidos. Não devemos em nada ao que é vendido lá fora”, observa. ;
Herszkowicz explica que a preferência pelo exterior na hora de vender o produto de melhor qualidade era fruto do mercado da época, que era bem restrito para os produtos de alto padrão. “Era uma outra realidade. O país hoje é outro”, frisa. Herszkowicz salienta ainda que os produtos sem qualidade correm o risco de perder mercado. ;
De acordo com dados da Abic, o consumidor brasileiro hoje pode gastar mais. Levantamento da entidade mostra que o índice de pessoas dispostas a pagar um pouco mais por um produto de melhor qualidade aumentou 32% em 2010. A pesquisa foi feita com 1.680 entrevistados em todo o país. O diretor executivo ressalta que a entidade possui uma certificação de qualidade e que já tem mais de cem marcas de café gourmet registradas. ;
Herszkowicz destaca que o mercado nacional consome, em média, 1 milhão de sacas de café de alta qualidade e outros 6 milhões de sacas são comercializados com 180 países, sendo boa parte para os Estados Unidos. “Além deles, outros grandes consumidores de café gourmet são o Japão e a Itália”, conta.; ;
O diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Breno Pereira de Mesquita, confirma que o melhor café brasileiro no passado era comercializado com o exterior. “Temos cafés de ótima qualidade, além de muitas cafeterias, que hoje são uma verdadeira febre. E é fato que ninguém sai de casa e vai numa cafeteria a não ser para tomar um bom café”, diz. ;
Ele ressalta que hoje o Brasil é reconhecido não só como um grande produtor de café, mas como um produtor de qualidade. “O nosso mercado interno é muito importante. Só perdemos em consumo para os Estados Unidos. E se não tivermos um produto de qualidade para oferecermos, outros irão vender aqui. Hoje, temos um produto de qualidade dentro e fora do país”, analisa. O Brasil é hoje o maior produtor de café do mundo, seguido pelo Vietnã e pela Colômbia. ;
PASSADO. O consultor de Negócios Internacionais da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Alexandre Brito, também defende que a ideia de que os melhores produtos são os de fora do país está ficando cada vez mais no passado, já que a indústria nacional está investindo em tecnologia e qualidade para poder disputar o mercado doméstico e internacional. “Há produtos importados de todo o tipo de qualidade”, diz. ;
A situação econômica favorável do Brasil frente aos países europeus e aos Estados Unidos, que; ainda sofrem os impactos da crise, tornou o país atraente para vários setores, como o de veículos. Mais recentemente, foi a vez dos chineses, como a Jac e a Chery chegarem ao Brasil. A também chinesa Lifan, que produzia motocicletas, diante de um mercado promissor passou em 2004 a fabricar carros no Brasil.
DIFERENÇA
Competição traz melhorias
A competição entre as empresas nacionais e estrangeiras no território nacional é um dos motivos da melhoria da qualidade dos produtos comercializados no Brasil, segundo a coordenadora de Comércio Exterior e pesquisadora da Fundação João Pinheiro (FJP), Elisa Maria Pinto da Rocha. “Para muitas empresas, em especial, as multinacionais, a disputa de mercado acontece em vários países. Não há praticamente distinção entre os produtos que são vendidos no Brasil e em outros países”, analisa. ;
De acordo com ela, o investimento em qualidade é uma forma de garantir e ganhar mercado. “Com o aumento da massa salarial e do emprego, a ascensão da classe C, passamos a ser um mercado disputado. Não somos mais segunda classe”, diz. ;
O diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Marcelo Ribeiro Tunes, lembra que; o manganês do Pará, considerado de melhor qualidade comparado com o encontrado em Minas Gerais, era vendido para o exterior, o que não significava preferência de mercado. “As circunstâncias na época não permitiam a venda para o mercado nacional, o transporte para outras regiões, como a Sudeste, não era viável economicamente. Só que havia mercado no hemisfério norte”, observa. ;
Ele destaca que hoje o mercado está consumindo, o que fez com que o minério de menor teor se tornasse rentável. “A commodity de melhor teor e a de teor mais baixo hoje têm espaço dentro e fora do país. Temos produto em quantidade e qualidade para abastecer o mercado externo sem prejudicar o interno”, observa. (JG)
Minério depende dos clientes
O mercado brasileiro no passado, época marcada pela inflação alta e pelo fraco crescimento da economia, fez com que muitas empresas nacionais voltassem os olhos para o exterior, segundo analistas.
; O diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Marcelo Ribeiro Tunes, ressalta que o país já viveu épocas em que não havia grandes siderúrgicas como hoje. “O melhor minério poderia não chegar até as empresas nacionais em razão de não ter uma fonte próxima e o mercado consumidor ser pequeno”, observa. Hoje, a situação é bem diferente, com o Brasil com forte mercado doméstico. ;
O analista de mineração e siderurgia da Geração Futuro, Rafael Weber, ressalta que o Basil ainda vende mais minério do que pelotas, que tem mais valor agregado. “Quem define o tipo de minério é o cliente. Assim, não há como melhorar o mix. Afinal, o minério é do cliente. Tudo depende da sua estrutura”, analisa. (JG)
O Tempo – MG