Brasil está longe do risco de doença holandesa, avaliam economistas
14/09/2010
Fenômeno é uma alusão à situação registrada pela Holanda nos anos 1970, quando a descoberta de gás provocou a valorização excessiva do câmbio e forte redução dos empregos industriais
SÃO PAULO – Economistas que participaram do lançamento do estudo “Recursos Naturais na América Latina – Indo além das Altas e Baixas”, realizado pelo Banco Mundial em São Paulo, disseram à Agência Estado que o Brasil não vive à beira do risco de enfrentar a chamada doença holandesa. Esse fenômeno é uma alusão à situação registrada pela Holanda nos anos 1970, quando a descoberta de gás provocou efeitos deletérios sobre o país, como valorização excessiva do câmbio e forte redução dos empregos industriais. Contudo, os especialistas ressaltaram que a criação de fundos de estabilização financeira, com uma regulação boa e clara pelo poder público, e o avanço da competitividade das empresas nacionais nos próximos anos são os elementos fundamentais para que o Brasil continue distante daquela anomalia registrada pelo país europeu.
Sem desejar fazer uma recomendação de gestão de política econômica, John Nash, principal economista do Banco Mundial e coautor do estudo, destacou que é muito importante que os fundos de estabilização financeira atuem de forma eficiente a fim de ajudar o Estado a administrar os recursos volumosos obtidos com exportação de commodities. “Um dos segredos para uma boa gestão das receitas com essas vendas externas é a diversificação de produtos negociados no exterior”, comentou.
Segundo ele, o Brasil é o típico exemplo de um país que soube ampliar o leque de mercadorias vendidas para outras nações no mundo. Ele citou que nos anos 1960 o café era a principal commodity exportada pelo Brasil e representava na época 53% do total das vendas externas. “Em 2006, este produto não constava mais entre as principais mercadorias vendidas pelo País. O primeiro lugar ficou com minério de ferro e respondeu por 7% das exportações totais daquele ano.” Como contrapartida, ele mencionou o caso bem diferente da Venezuela, que em 1962 tinha 67% das exportações concentradas em petróleo e em 2006 tal participação alcançou 92%.
Para Francisco Ferreira, economista-chefe adjunto do Banco Mundial para América Latina e Caribe, o Brasil não vive o risco iminente de passar pela doença holandesa, mas cuidados são necessários. “Nesse sentido, é essencial o papel dos fundos estabilizadores financeiros, discussão que no País ainda está embrionária, haja vista o potencial esplêndido de recursos e exportações que o Brasil passará a ter com a produção de petróleo do pré-sal.”
Ferreira também destacou como fundamental que a gestão desses recursos extraordinários obtidos com a venda de commodities ao exterior tenha um marco regulatório bem sólido e eficaz. Ele evitou fazer um juízo de valor se tais normas deveriam ser definidas pelo Poder Executivo, pelo Congresso ou por uma agência reguladora. Contudo, mencionou que há experiências em outros países onde tais normas são definidas com a atuação preponderante de um órgão regulador. “É preciso também pensar que o volume de recursos que ingressará no País será tão grande que seria oportuno que uma parte desses recursos de fundo de estabilização seja administrada no exterior a fim de reduzir as pressões de valorização da nossa moeda.”
Sobre a manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo a qual uma parte expressiva dos recursos do pré-sal deveria ser destinada à educação no País, Ferreira fez a seguinte avaliação: “Essa questão precisará ser analisada com muito cuidado. A minha área de especialização como economista é em educação e é importante avaliar que uma parcela desses recursos poderia vir do pré-sal. Contudo, seria talvez oportuno que fosse avaliado (pelas autoridades) que o ingresso maciço de volumes de capitais poderia apreciar tanto o real que poderia colocar em risco muitos empregos do setor industrial.”
Para o chefe do Departamento de Acompanhamento Econômico do BNDES, Fernando Puga, uma das melhores estratégias que o Brasil adota e que deverá continuar nos próximos anos para ficar distante da doença holandesa é a continuidade dos investimentos para melhoria da competitividade das empresas nacionais. Ele destacou, por exemplo, os investimentos realizados pelo BNDES em diversas áreas, inclusive em pesquisa e desenvolvimento. “O avanço da estrutura de financiamento de longo prazo no País que está ocorrendo e deve continuar nos próximos anos será fundamental para fortalecer a atividade das companhias nacionais em todas as áreas, inclusive na indústria de transformação”.
Puga citou que a perspectiva de avanço do total de investimentos no País de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) ao final de 2010 para 22,2% em 2013 é uma boa indicação que a Formação Bruta de Capital Fixo no País vai crescer com vigor e ficará bem mais resistente para evitar eventuais riscos causados pelo aumento das exportações de commodities.
O Estado de São Paulo