BID defende diversificação de comércio entre China e América Latina
07/12/2010
SÃO PAULO – Apesar de a relação comercial entre China, América Latina e Caribe ter promovido ganhos significativos, os benefícios foram para poucos setores e para um número limitado de países da América Latina e Caribe. Cerca de 90% das exportações da região para a China saem de apenas quatro países – Brasil (41%), Chile (23,1%), Argentina (15,9%) e Peru (9,3%). Os produtos de mineração representam quase metade das vendas da região para a China, seguidos dos produtos agrícolas, de acordo com o relatório “Dez anos após a decolagem” (“Ten years after the take-off”, em inglês), produzido pelo Setor de Integração e Comércio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
O documento, divulgado nesta segunda-feira pelo BID, examina a evolução do comércio, do investimento e da cooperação entre a China e a América Latina e Caribe ao longo da última década. O que se destaca no estudo é que, para diversificar a composição do comércio bilateral entre China e região, é preciso que os formuladores de políticas unam esforços para reduzir tarifas, custos de transporte e outras barreiras.
Durante a última década, o comércio entre as duas regiões apoiou-se na pura complementaridade de seus recursos: a China tem escassos recursos naturais, enquanto a América Latina e o Caribe contam com abundância desses recursos. Isso levou a uma troca clássica de commodities por bens manufaturados.
No entanto, os custos comerciais ainda são altos o bastante para restringir as oportunidades de comércio de ambos os lados da relação e, portanto, requerem uma ação governamental, disse Maurício Mesquita Moreira, economista principal do Setor de Integração e Comércio do BID e autor do estudo.
“As regiões precisam ampliar os investimentos e a cooperação a fim de abrir o caminho para uma maior diversificação das exportações e amenizar eventuais distorções causadas pela maior liberalização do comércio?, avaliou.
Como soluções, o economista destaca a redução de barreiras não tarifárias por parte da China, que mantém, desde que entrou para a Organização Mundial do Comércio em 2001, restrições importantes, em particular na agricultura, para produtos como trigo, milho, algodão e açúcar.
No lado da América Latina e do Caribe, o ambiente de poucas restrições é verificado nas economias menores e mais complementares, como Chile, Peru e Costa Rica, que avançaram para a assinatura de acordos comerciais com a China. No entanto, esse ambiente tem apresentado claros sinais de deterioração nos países maiores, com interesses manufatureiros mais competitivos, como Brasil, México e Argentina.
Nesses casos, houve um aumento acentuado do número de investigações antidumping e de barreiras não tarifárias contra exportadores chineses, além de uma crescente oposição a conferir à China a condição de economia de mercado.
O economista destaca ainda que esses desequilíbrios muito grandes podem ser fonte de tensões comerciais e envenenar a economia política da relação. ?Isso poderia acabar levando a mais barreiras entre as duas regiões no futuro próximo?, concluiu Moreira.
Valor Econômico