NOTÍCIAS

Aposta do Brasil na África esbarra em concorrentes e críticas

Notícias Gerais

08/09/2010


Alvo de intensos esforços diplomáticos, comerciais e de cooperação durante a Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, a África tornou-se um exemplo de como o Brasil é capaz de ampliar sua presença no mundo.
;
Mas o continente vem demonstrando também que o Brasil enfrenta obstáculos no caminho para se tornar uma potência emergente, e que ainda precisa vencer desafios como a presença de concorrentes como a China, por exemplo.
;
O governo brasileiro acredita que a presença na África é importante para garantir espaço entre futuros países consumidores, uma vez que cada vez mais nações africanas vêm deixando para trás histórias de conflito e combatendo a pobreza.
;
O presidente Lula gosta de lembrar que, desde janeiro de 2003, visitou 27 países africanos, “mais que todos os presidentes da História do Brasil juntos”.
;
“A África deixou de ser um continente problema e está cada vez mais se tornando um continente de oportunidades”, afirmou uma fonte do Ministério das Relações Exteriores, resumindo um pensamento que o próprio Lula e seu chanceler, Celso Amorim, costumam repetir.
;
O valor das relações comerciais entre Brasil e África, que era de US$ 5 bilhões ao final de 2002, mais que quintuplicou em 2008, quando chegou a US$ 26 bilhões.
;
Os efeitos da recente crise econômica reduziram este volume para US$ 17 bilhões em 2009, mas até julho deste ano o intercâmbio havia superado os US$ 11,5 bilhões.
;
Entre 2002 e 2008, as exportações cresceram 340% e três quartos delas foram de itens manufaturados.
Os números refletem o dinamismo com que o setor privado brasileiro tem se expandido no continente. Empresas como Odebrecht, Vale e Camargo Correa competem agressivamente com concorrentes por mercados.
;
Desafio
;
A segunda maior frente de trabalho da Odebrecht, que tem operações em 27 países africanos, está em Angola. Depois de quase quatro décadas de guerra de independência e civil, o país vem crescendo a uma taxa média anual de 13% desde o fim dos conflitos, em 2002.
;
O governo angolano prometeu construir até 2012 um milhão de casas para a população de mais baixa renda, e empresas como a Odebrecht, que já tem uma presença de três décadas no país, têm agarrado as oportunidades.
;
Mas por vezes a presença brasileira encontra concorrentes fortes. O principal deles é a China, que tem se inserido fortemente no mercado africano em busca de recursos naturais para alimentar seu crescimento econômico.
;
Estima-se que o banco chinês de desenvolvimento tenha investido cerca de US$ 10 bilhões na última década em projetos em Angola – país que é o terceiro maior produtor de petróleo da África.
O valor é mais que o triplo da linha de crédito que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) disponibilizou até agora em linhas de crédito em Angola.
;
Em Moçambique, os US$ 2 bilhões que a mineradora Vale investe para começar a extrair carvão da mina de Moatize, a partir de janeiro de 2011, parecem pequenos diante dos US$ 15 bilhões que a China investirá no país nos próximos cinco anos – principalmente em projetos de infraestrutura.
;
Além disso, em 2006, a Vale perdeu para a concorrente chinesa a concessão de um projeto de extração de minério de ferro no Gabão. Comentando esse episódio recentemente na Tanzânia, Lula desafiou os concorrentes chineses e disse que a Vale, se tivesse sido escolhida, criaria mais empregos locais.
;
“Nada contra os meus amigos chineses. Mas a verdade é que às vezes eles ganham a mina e trazem todos, chineses, para trabalhar naquela mina e fica sem gerar oportunidade de trabalho para os trabalhadores do país”, disse, defendendo a empresa brasileira.
Críticas
Empresas brasileiras, entretanto, vêm sendo alvo de críticas na região. Em Moçambique, a Camargo Correa está na berlinda devido a uma barragem, que segundo críticos seria construída sem que estudos de impacto ambiental tenham sido concluídos.
;
O projeto Mpanda Mkuwa, no valor de US$ 2 bilhões, erguerá uma represa no Rio Zambeze para gerar 2,7 mil megawatts de energia. Apesar de os estudos sobre o impacto na biodiversidade do local só ficarem prontos no fim do ano que vem, o governo moçambicano deu o sinal verde para o projeto no mês passado.
;
“Esta imagem de que as empresas brasileiras são mais éticas que as outras, por exemplo, as chinesas, é completamente falsa”, diz o porta-voz da organização moçambicana Justiça Ambiental, Jeremias Filipe.
;
Apesar de culpar principalmente o governo de seu país, ele diz que o envolvimento de empresas brasileiras em projetos no interior de Moçambique já levou “uma pequena parte da população” a crer que “as empresas brasileiras são até piores em transparência e respeito aos direitos das comunidades que as empresas dos países desenvolvidos”.
;
“O que se pede é que estes investimentos cumpram com padrões mais preconizados a nível internacional e que os investimentos, para que isso não afete a imagem que a África, que Moçambique tem do Brasil”, diz o ativista.
;
Língua em comum
;
Menos polêmicos são os projetos de cooperação que o Brasil desenvolve na África. A chamada “diplomacia da generosidade” rende ao país prestígio e liderança em fóruns internacionais.
;
Segundo a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), para o biênio 2009-2010 estão previstos 150 projetos de cooperação na região, com um orçamento total de US$ 38 milhões.
;
De todo o volume de recursos alocados para projetos de cooperação técnica no continente, 74% estão nos países de língua portuguesa – para os quais o Brasil é uma espécie de “irmão maior”, nas palavras do embaixador brasileiro em Moçambique, Antonio de Souza e Silva.
;
Um dos projetos de cooperação mais importantes do Brasil na África é o chamado Cotton 4, no qual o país transfere tecnologia para aperfeiçoar o algodão em quatro países pobres e altamente dependente das exportações desse produto (Benin, Burkina Fasso, Chade e Mali).
;
O projeto se tornou tão importante que até a Empresa Brasileira de Pesquisa Agrícola (Embrapa) passou a ter um representante no Mali para coordenar o projeto.
;
Com custo de US$ 4 milhões para o Brasil, o Cotton 4 permitiu que o governo brasileiro demonstrasse força, ao articular na Organização Mundial do Comércio (OMC) uma retaliação aos EUA por seu protecionismo ao algodão.

O Globo


Compartilhe:

Assine nossa newsletter e fique por dentro das últimas notícias do setor INSCREVER