Angra 3 reacende discussão sobre o Programa Nuclear Brasileiro
31/03/2008
Em hibernação há cerca de 20 anos, com gastos anuais em manutenção e seguro que ultrapassam os oficiais US$ 20 milhões, a retomada das obras da Usina Nuclear de Angra 3, prevista para a segunda metade deste ano, coloca na mesa mais uma vez a eficiência do Programa Nuclear Brasileiro, desenhado na década de 70 com o acordo de intercâmbio tecnológico Brasil-Alemanha.Atendendo à decisão judicial e convocação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Eletronuclear, subsidiária do grupo Eletrobrás, realizou durante toda a semana passada audiências públicas para discutir o Estudo e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) de Angra 3, desenvolvidos pela consultora MRS Estudos Ambientais a pedido da estatal.”É uma tecnologia eficiente, mas cara no início. No Brasil, pode se tornar econômica por nossas reservas de urânio”, afirma o professor de física nuclear João Arruda Neto, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). A grande reserva de urânio brasileira, sexta maior do mundo, facilita o programa nuclear no país, que não depende da importação do produto.”É uma alternativa a se pensar, até porque são poucas as saídas para o problema energéticos no Brasil. Pode ser útil para regiões com poucos recursos hídricos, como o Nordeste”, diz Arruda Neto. O ministro das Minas e Energias, Edison Lobão, já reconheceu o potencial energético da região, afirmando o interesse do governo em implantar projetos no nordeste brasileiro.Participaram das audiências da semana passada as comunidades próximas à Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto e funcionários das usinas Angra 1 e 2.O assistente da presidência da Eletronuclear, Leonan Guimarães, que representou a estatal nas audiências, disse que a expectativa é de que seja mantido o cronograma e as obras possam iniciar no segundo semestre. “Esperamos que a licença seja concedida entre 30 e 50 dias. O processo de licenciamento no Ibama já estava adiantado, mas teve que ser interrompido por causa das reuniões.” A documentação para o início das obras está avançada, segundo Guimarães, devido ao longo período de negociação.Problemas ambientaisFoi a segunda tentativa da Eletronuclear de obter a licença prévia para o empreendimento. As audiências públicas realizadas no ano passado foram anuladas judicialmente com a justificativa de que tiveram pouca publicidade. Na ocasião, a Eletronuclear recorreu da decisão, mas o processo ainda está em curso. A empresa mantém a expectativa de que Angra 3 comece a funcionar no primeiro semestre de 2014.Há uma semana, ativistas do Greenpeace protestaram na entrada da Eletrobrás contra a construção da usina. A ONG, que é contra o uso de energia nuclear no país, divulgou um estudo que aponta o projeto nuclear brasileiro como caro e ineficiente para resolver os problemas nacionais de abastecimento energético. Em nota, a Eletronuclear acusou a entidade de ter “copiado e confundido” dados de uma palestra realizada pela própria estatal em dezembro do ano passado.A proposta de retomada e conclusão da usina foi aprovada no meio do ano passado, como parte do Plano Decenal de Expansão de Energia Elétrica do ministério das Minas e Energia. Segundo cálculo do ministério, o crescimento estimado de consumo de energia até 2015 exige uma ampliação média de 3 mil MW por ano. Com a construção de Angra3, o parque nuclear brasileiro terá 3,3 mil MW.Nada parecido com o potencial hidroelétrico brasileiro. Só uma idéia: o complexo hidroelétrico do Rio Madeira – com as usinas Jirau e Santo Antônio – tem previsão de gerar quase 6,5 mil MW (metade da Binacional Itaipu, que representa 77% da energia gerada no Brasil).O projeto da nova usina nuclear é muito semelhante ao de Angra 2 – por isso, são chamadas usinas gêmeas -, o que facilita o aproveitamento de soluções técnicas já desenvolvidas. Há duas diferenças principais: enquanto Angra 2 foi construída sobre estacas e tem sistema de instrumentação e controle analógico, a outra será sobre rocha com um sistema digital. A Eletronuclear calcula uma produção anual de cerca de dez tonelada de watts por hora (TWh) para a usina. Está nos planos da Eletronuclear a construção até 2030 de outras quatro usinas nucleares, com potência de mil MW cada, duas no Nordeste e duas no Sudeste do País.Com as sete usinas, a capacidade de geração de energia nuclear, em 2030, deve chegar a 7,3 mil MW. Hoje, a energia nuclear é responsável por apenas 3,3% da matriz energética nacional. Na França, quase 80% da energia elétrica vem de usinas nucleares.A usina de Angra 1 não está em funcionamento atualmente. Após um princípio de incêndio em um de seus geradores, no início do ano, a usina foi desligada no dia 16 de fevereiro por dois meses para reabastecimento de combustível e manutenção. Angra 1 só deve retornar ao sistema no dia 15 de abril e tem outra parada programada para setembro, desta vez por quatro meses, para a troca dos dois geradores de vapor, voltando a produzir energia no início de 2009.A capacidade de geração de Angra 1 é de 657 MW e usina hoje atende a cerca de 11% do consumo elétrico do Estado do Rio.Somada a Angra 2, que tem capacidade para gerar 1.350 MW, as duas usinas são responsáveis por quase 50% do consumo energético fluminense.Angra 1, comprada da americana Westinghouse em 1969, começou a funcionar seis anos depois. Já Angra 2 foi inaugurada em setembro de 2000. Durante os primeiros anos, Angra1 foi chamada de vagalume, por alternar períodos de funcionamento com paralisações por problemas técnicos.A retomada das obras na usina de Angra 3 aquece os humores de ambientalistas e renova as esperanças de que a energia nuclear possa ajudar o País em sua crise energética.
DCI